"Comece pelo começo - respondeu o Rei, muito sério - E vá até o fim. Quando terminar, pare." (Alice no País das Maravilhas - Lewis Carroll)

domingo, 25 de dezembro de 2011

Sobre temperatura.



A noite era fria, mas meu corpo continuava quente.
As memórias eram duras, mas meus passos eram suaves.
O vento era grosseiro, mas a embriaguês era delicada.
Desde você, os únicos gostos que guardo na boca são de lágrimas, vodka, remédio e cigarro.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Sobre a sabedoria da velhinha da casa ao lado.

Dizem que ela era uma mocinha muito bonita a Flor de Liz. Só que ela era muito caladinha, sabe? Até falava quando precisava, mas só assim. Quando via alguém gritando ficava assustada, tinha que ver! Lia e desenhava que fazia gosto! Teve um dia que a menina Flor de Liz ficou tão nervosa que resolveu que queria passar o resto da vida sozinha e foi se isolar longe de todo mundo. Passou um tempo, a coitadinha chorou até desidratar, olha que dó! Dizem, sabe, que esse lago alí ó, tá vendo? Pois é, dizem que esse lago ali é feito das lágrimas dela, e que ela fica lá no fundo até hoje. Eu mesma uma vez quando era menina fui mergulhar aqui na lagoa e vi ela lá, no cantinho. Ela sorriu pra mim, a Flor de Liz.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Sobre o arame farpado.





Malícia deveria ter sido menino.
Nasceu.
Menina, mas nasceu.

Malícia gostava mais do lápis da coleguinha que dos seus.
Pediu emprestado.
Não coloriu, mas quebrou.

Malícia não gostava de seus cabelos.
Ganhou uma boneca.
Não penteou-lhe, mas arrancou-lhe a cabeça.

Malícia se achava feia.
Podia ser sexy.
Não se escondeu, mas esnobou.

Malícia não gostava de ninguém, Luana gostava de Henrique.
Bebeu todas.
Beijou o garoto errado, mas beijou.

Malícia ficou sozinha.
Viu Gustavo passar.
Não só olhou, mas se jogou.

Malícia teve filhos bonitos.
Viu um avião.
Não queria ficar, mas voar.

Malícia escreveu um bilhete.
Era meia noite.
Certo ou errado, mas escolheu.

Malícia saiu pra vida aos 28.
Libertinagem.
Não abraçou, mas amou o destino.

sábado, 1 de outubro de 2011

Sobre pedidos.

- Alô? Alô! Quem é? Alô?!
E o telefone desligava. Era isso há três semanas.


-Eu amo você, Eduardo.
- Eu te amo, Bianca.
Eles estavam no quarto de Bianca, escondidos. Eduardo morava no andar de cima e pra ele era fácil pular para a sacada do andar de baixo. Os pais não podiam nem sonhar que isso acontecia, de nenhum dos dois. Eles eram inflexivelmente contra aquela "paixãozinha estúpida que nunca daria em nada". Mas eles não se importavam. Estavam na sacada do quarto de Bia, ela sentada e ele de pé em frente a ela. Era quase uma da madrugada e Eduardo tinha que voltar.
- Quero meu beijo de despedida.
E o beijo se estendia.
- Bianca! - seu pai aparecera em seu quarto. No susto com o grito do pai, Bianca caiu da sacada. Um vôo do terceiro andar ao asfalto.
- Bia! - Eduardo se desesperou e passou correndo pelo pai de Biana que estava estático na porta, onde gritara a filha. Eduardo desceu as escadas correndo e encontrou Bia desacordada na rua,
- Socorro! Por favor, chamem uma ambulância! Bia, Bia, meu amor! Eu não vou deixar você, por favor, não me deixe!


"Era tudo perfeito. Lembrou-se da primeira noite que passaram juntos e começou a viver a partir daí. Estavam numa casa em frente a um lago. Moravam lá, os dois. Eram felizes. Ah, Eduardo..."


- Não é verdade! Isso não aconteceu! Eu sinto, não pode ser. Eu a pedi que não me deixasse. - Eduardo reagiu a soluços ao que o pai de Bia lhe dizia.
- Sim, Eduardo. Infelizmente minha filha está morta.
Eduardo foi para casa arrasado, sem saber o que fazer. Mais uma vez, desespero. 
O pai estava realmente mentindo. Para Bianca foram três longos meses em coma. Para Eduardo, uma eternidade de dor. Seu quarto se transformou num santuário para Bia. Desenhos e fotos dela espalhados por toda parte em meio a uma imensa bagunça. A desordem do quarto nada mais era que um retrato fiel da desordem da cabeça daquele garoto. Há três meses ele não fazia nada a não ser lembrar Bianca. Quase não comia, não saia do quarto. Chamava por Bia a todo momento, escorria-se nas paredes. Diziam que tinha enlouquecido e os pais até consideraram interná-lo. Estava na janela do quarto perdido no nada quando a viu passar. Era ela, só podia ser! Ele sabia que ela não estava morta. E ele não estava louco. A garota entrou num taxi e foi embora.
O pai de Bianca havia se mudado Eduardo não sabia pra onde. Pegou a lista telefônica e procurou pelo nome Neron Toresco.
3275-8896
- Eu vou te encontrar, Bia. Meu amor...
Ligou na manhã seguinte. Uma linda voz atendeu.
- Alô?
Era ela. Ele nunca se esqueceria daquela voz. O que dizer?
- Alô? Se isso for algum tipo de brincadeira...
Desligou. Ela não lembrava dele. Eduardo acabara de entender que Neron estava mentindo todo esse tempo. Por quê? O que teria acontecido com Bia? Ele não podia arriscar falar por telefone. Resolveu encontrá-la. Mas não imediatamente. Ele estava horrível. O peso da dor, o reflexo no corpo. Ligou algumas vezes mais e por fim mandou uma carta.

" Só preciso ter certeza de que era mentira. Precisava saber que você estava viva. Obrigado pela sua voz..."

Que bilhete estranho era aquele? Provavelmente era da pessoa que ligava, mas quem poderia ser? Bianca resolveu sair. Eduardo, que estava na rua esperando, a seguiu. Ela se sentou num banco um uma praça que ficava sempre vazia. Eduardo a ficou observando por um tempo... Andou e parou de pé atrás dela, sem que ela o pudesse ver. Encostou em seu ombro e estendeu-lhe uma flor. Bia levantou-se e olhou fundo nos olhos daquele rapaz.
- Eduardo!
Ela se lembrava.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Desse amor

Minha flor,
não me jogue sorrisos rasgados
não me olhe tão desconcertado
você já não me conhece, não mais.

Minha flor,
não volte os relógios pra trás
dê adeus ao tempo arrastado
e retrate sua vida ao real.

Minha flor,
Por que deixaste seus olhos perdidos?
Amor não reconhecido
me fazendo alguém tão banal.

Meu amor,
vê, você anda areias passadas
finda sua longa estrada
não, não estarei no final.

Porque
Meu amor,
o que sobra de nós, essas chagas doídas
um dia hão de virar só ferida
e fechar.

A verdade
Meu amor,
é que ainda me dói em demasia
que nem a lágrima que meu rosto umedecia
entende mais.

Seca...

Inspiração: Amor Marginal ^

sábado, 6 de agosto de 2011

Je t'aime!


Eu queria escrever uma história
sobre Elysia.
Mas ela se casou, 
mudou pra França
e teve dois filhos gorduchos.
Devia ter entregado aquelas flores.
E o chocolate era meio amargo.
Parece que meu coração morreu.
Merde.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Sobre proteção.

   João Gabriel estava aproveitando suas férias com a mulher e os filhos em sua fazenda. A mulher era jovem como ele e os filhos eram gêmeos, um casal.
Enquanto brincava na lagoa com as crianças recebeu uma ligação do trabalho, precisava assinar alguns papeis da empresa.
- Geovana, Heitor! Hora de voltar! Papai tem que ir. Vamos, saindo da água os dois. Quem sair por último ganha cosquinhas.
As crianças saíram e quando os três chegaram à casa na fazenda, Bertie, o labrador, latia loucamente com o olhar fixo na cerca.
João colocou os filhos em casa, beijou a esposa e saiu depressa ainda explicando porque tinha que ir e que logo voltaria.
- Bertie, pare de latir pro nada, garoto. Preciso sair, vamos!
João entrou no carro. Quando já tinha saído da fazenda, olhou o retrovisor e viu um par de olhos. Freou bruscamente, tinha uma pessoa no banco de trás. Arrepiado, virou-se para ver quem era e não tinha ninguém. Respirou fundo e voltou a dirigir. Quando estava já no meio da ponte, João sentiu seu carro desacelerando mas ele não pisava no freio e o tanque estava cheio. Tirou o pé do acelerador e as mãos do volante. O carro começou a voltar. Sozinho. Tudo voltava, os carros que João havia ultrapassado passavam novamente por ele, as árvores ao final da ponte pareciam andar para frente. Era como se o tempo estivesse voltando. O tempo estava voltando. João chegou na fazendo, saiu do carro, falou com Bertie, beijou a esposa, foi com os filhos no lago, tudo involuntariamente. Era como se todos estivessem numa hipnose que os fizesse voltar, exceto João. Ele voltava sem o comando de sua mente, ele estava assustado. Quando desligou o celular as coisas voltaram ao normal. Mas João não conseguia falar. Estava sem fôlego, o coração acelerado. Olhou para os filhos mas não conseguia mandá-los sair da água. Bertie vinha correndo, pulou em João e o jogou na água.
- Bertie!
João siau da água, mandou os filhos voltarem para a casa e foi pegar Bertie que estava correndo. Quando alcançou o cão, viu que sua coleira estava presa em um arbusto. Demorou um pouco para soltá-lo e voltou para a casa. Ao entrar, enquanto falava para a mulher que teria que voltar à empresa por alguns minutos, ouviu-se um barulho ensurdecedor, como se fosse uma explosão. João Gabriel chegou na janela para ver o que era. Havia um jovem encostado em seu carro acariciando Bertie. Ele tinha os olhos que João vira no retrovisor e mais, tinha asas. O jovem sorriu para João que estava sem reação na janela e saiu andando pela estrada.
A ponte havia caído.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Sobre marcas.

   Era 1988 quando Clarice tinha 5 anos e morava com a mãe e a tia. Seu pai deixara sua mãe quando ela estava grávida e Clarice nunca o conheceu. Sua mãe não passava muito tempo com a menina, ela tinha os olhos do pai. A tia Abigail era quem mais cuidava de Clarice. A menina não gostava do padrasto, lhe dava arrepios quando ele passava. Por vezes Clarice o via chegar em casa com bebidas e, espiando na gretinha da porta do quarto, via a tia recolher os corpos de sua mãe e do padrasto que, tão bêbados, ficavam caídos na sala mesmo. A tia também não gostava de Roberto, o padrasto. Ele já tinha tentado agarrá-la várias vezes, mas Abigail sempre conseguia fugir. Clarice observava o que acontecia dentro de sua casa e não falava nada. Clarice desenhava. Seus desenhos eram as palavras que ela não falava, eram as coisas feias que ela via e nem sempre entendia. Era uma quarta-feira quando o padrasto chegou em casa fora de si. Dessa vez não entregou o conteúdo da garrafa para a mãe de Clarice, mas quebou-a em sua cabeça, deixando-a desacordada no chão. Abigail correu logo para ajudá-la, mas Roberto a pegou pelos cabelos, tapou-lhe a boca e a colocou sobre a pia. 
- Foi sempre você, Abigail, sempre! Eu nunca quis sua irmã e você sabe disso! Mas você nunca me quis, por quê? Por quê, Abigail?! Por quê?! Eu amo você! Eu quero te fazer feliz meu amor! - e tentou beijá-la.
- Eu tenho nojo de você, Roberto! Me solte, está me machucando! 
- Como você pode ter nojo de alguém que te ama?! - e tentava tirar-lhe a blusa.
- Me solte, Roberto! O que você está fazendo?
- Você é uma vadia, é isso o que você deve fazer! - e tentava agarrá-la.
Abigail esperneava e gritava.
- Calada! - Roberto lhe deu um tapa - Calada, meu amor! Eu sou o homem pra você!
Era difícil identificar até onde ia a bebida e onde já era loucura, obsessão os olhos daquele homem.
Clarice tinha medo, estava parada atrás da porta do seu quarto observando tudo em silêncio, com medo de sair do quarto. 

Clarice nunca esqueceu aquele homem. Todos os dias ela pensava nele, em se vingar por tudo o que ele havia feito às pessoas que ela amava. Ela não iria deixá-lo ileso, ela não podia. Clarice, uma linda mulher de 32 anos, passava dias a fio observando Roberto e planejando o que faria com ele. De certa forma isso a lembrava do tempo de criança, quando observava tudo sem que ninguém soubesse. Clarice tinha um plano, era uma quarta-feira quando resolveu colocá-lo em prática.
Roberto estava no supermercado. Clarice parou no estacionamento e ficou o esperando sair. Passava a chave do carro na boca, sedutora, ansiosa. Roberto saiu, andava rumo à sua casa. Clarice o seguiu com o carro de longe. Quando Roberto passava por uma rua vazia, Clarice sorriu: é agora. A linda mulher acelerou o carro ao máximo e fechou os olhos. Só ouviu o barulho de algo batendo no carro. Roberto. Ela parou o carro no fim da rua, abriu os olhos, olhou no retrovisor. Estava feito. Desceu. Viu aquele corpo com raiva e alívio. Beijou a rosa vermelha que tinha nas mãos e jogou sobre ele:
- É isso que as vadias fazem! 
Clarice voltou para o carro e dirigiu como nunca antes. Livremente, leve! Clarice voava.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Sobre hipóteses.

E se você me olhasse da mesa da frente, de onde você está agora? Eu provavelmente te olharia de volta. E se eu te olhasse de volta? Você corresponderia meu olhar? Eu corresponderia o seu? E se você se levantasse fingindo ir a algum lugar só pra passar ao meu lado? Eu te seguiria com os olhos? Você me seguiria com os seus enquanto caminha? Eu gostaria do seu cheiro? Você se lembraria do meu? E se você viesse na minha direção? E se você falasse comigo? As borboletas continuariam no meu estômago? E se eu te respondesse? A conversa renderia? E se eu te dissesse aquilo? Provavelmente te daria a certeza do que você já desconfia. Talvez eu devesse me levantar. Talvez eu devesse ir até você. Talvez seja eu quem deve tomar alguma iniciativa. Mas não, provavelmente eu não vou. Ou vou? Eu devo ir. Devo. Ele se levantou. Olhou para mim. Eu devo. Recolheu a mochila. Olhou para mim. Eu devo. E foi embora. Olhando para mim. Eu devo, eu devo. Talvez eu devesse...

Sobre o menino que buscava.

Todo dia, às cinco horas, ele saía de casa, atravessava a rua em direção à escola e voltava com ela. Eram vizinhos os dois, de apartamento, mesmo andar. Ele gostava de buscá-la na escola.
- O que teve hoje?

- Muito dever. - ela respondia desanimada.

No outro dia:
- O que teve hoje?

- Lindas histórias - ela respondia sonhadora.

E no outro dia:

- O que teve hoje?

- Um aluno novo entrou na sala.

E era assim, sempre assim. De segunda a segunda. Até segunda...
- O que teve... Você deixou isso cair!

Era um papel onde ele conseguiu ver um coração e ler um nome antes que ela o tirasse rapidamente de suas mãos. Nesse dia ela não respondeu o que teve. Nesse dia ele percebeu que queria ser mais do que o garoto que buscava. Ele acabara de perceber que já era o garoto que amava.
No outro dia, quando ele foi buscá-la na escola, tinha um papelzinho nas mãos.

- O que teve hoje?
- As provas marcadas.
- Você deixou cair esse papel!

- Não é meu...
E ela nem viu o coração que ele havia desenhado mais cedo.
E no outro dia:
- O que teve hoje?
- Não acredito ainda que errei essa questão da prova! A resposta era boba de tão óbvia!

Ele abriu o portão com o braço em que tinha escrito
EU TE AMO, de forma a deixar as letras bem visíveis. Mas a prova não deixou que ela visse o braço dele.
De amanhã não passaria. Chega de ficar noites em claro pensando em como seria se ela soubesse. Dessa vez ela saberia.
Hoje ele não atravessou a rua, parou no meio. Quando ela apareceu no portão, dele abriu a jaqueta deixando à vista a camisa com as palavras que ele logo disse:
- Eu te amo!

- Cuidado!
Ela o empurrou caindo sobre ele enquanto um carro passava por eles buzinando.

- Pensei que você não fosse mais falar! Como demorou! Eu também amo você!
Se beijaram. Da forma que caíram no passeio, ela sobre ele, se beijaram.

- Esses jovens de hoje em dia! - uma senhora descia a rua.

Sobre aquele navio que todo mundo conhece. - Continuação I

O escuro agora era como uma fumaça que distorcia a visão. A cabeça, doía muito a cabeça de Anabell. Ela levantou-se com certa dificuldade e sentou-se num banquinho. Suas roupas estavam molhadas e pesadas, o lugar era escuro, com apenas uma vela para iluminação. Parecia um depósito. Anabell sentia frio.
Alguém abriu a porta deixando entrar um feixe de luz no lugar.
- Ai, essa luz!
- Você acordou! Como se sente? - era uma mulher, não era jovem como Anabell mas também não era velha.
- Que lugar é esse, quem é você e como cheguei aqui. - Anabell talvez não quisesse realmente usar esse tom imperativo, mas estava com medo.
- Você está em Jan Mayen. Um de nossos homens que chegava no navio te viu boiando no mar.
- Boiando no mar... ?
- Não se preocupe com isso agora, querida. Venha, vamos subir para que troque essas roupas molhadas.
Anabell estava mesmo num depósito. Quando saiu de lá entrou num corredor que dava num bar. As pessoas eram tão obscuras e sujas como o lugar. A mulher levou Anabell para uma escadaria que levava a um segundo andar.
- Espere aqui.
Anabell estava num quarto que parecia feito para uma criança. Um quarto grotesco, mas infantil. A mulher voltou.
- Aqui estão, devem servir para você. Troque sua roupa molhada e durma um pouco. Logo trago comida para você. Se precisar de alguma coisa, estarei lá embaixo. - a mulher beijou-lhe a testa e saiu.
Anabell se trocou e sentou-se na cama. Abriu a cortina. Mar, uma imensidão de água se abria a frente da janela.
"O navio está afundando!"
Ela se lembrou. Agora ela sabia o que tinha acontecido e precisava voltar. Ela desceu correndo as escadas, passou pelo bar e abriu abruptamente a porta.
- Maria! - a mulher corria atrás dela.
Havia uma multidão gritando num lugar que parecia um porto em frente a um navio que, ao que parecia, partiria em minutos.
- Maria, onde pensa que vai? - a mulher alcançara Anabell.
- Eu não me chamo Maria! Me solte!
- Você é Maria sim! Eu sei que Deus te levou de mim anos atrás mas ele viu, ele viu! Eu nunca esqueci de você, nunca desfiz seu quarto porque sabia que você voltaria, minha filha! Deus teve pena de mim e me devolveu minha menina!
Havia uma certa loucura naquilo, mas Anabell sentia pena daquela mulher que chorava e a segurava desesperadamente. Havia muita dor em seus olhos. Mas ela precisava voltar, não podia ficar ali.
- Solte-me! Eu não sou sua filha e nunca seria! Deixe-me ir, mulher! Largue-me!
Anabell soltou-se daqueles braços e correu deixando a mulher imóvel em meio às suas frias lágrimas.
Quando chegou naquela multidão, Anabell viu o que realmente estava acontecendo. Queriam sair da ilha, todas aquelas pessoas, mas os homens que estavam na embarcação não deixavam. A situação era violenta. Anabell pulou na água fria e nadou em direção à embarcação que agora conseguis avançar deixando o porto e a multidão para trás. Ela agarrou-se nos pés de um homem e começou a usá-lo como corda, escalou-o até conseguir finalmente estar a bordo. Ela sentou-se na ponta da embarcação ainda sem fôlego. A multidão continuava a gritar e uma mulher, agora caída, chorava na ponte. Era horrível.
Anabell andou pelos corredores daquela embarcação e sentou-se num banco, na parte externa do navio. No banco ao lado estavam dois senhores que conversavam. A viagem parecia demorar e Anabell de distraída com seus pensamentos. Até que ouviu parte da conversa dos dois senhores ao lado:
- Triste fim.
- Do que você fala?
- Foi aqui, o navio que afundou. Exatamente aqui.
Anabell correu até a proa do navio, o mar estava escuro. Estava. Algo começou a iluminar-se ali. Lá estavam, seu pai e sua mãe. Eles dançavam no que parecia um salão. Anabell continuou a andar agarrada às grades do navio. Havia um moço. Estava no que parecia ser um sofá. Erguia um copo em direção a ela como cumprimento. E tinha aqueles olhos, lindos olhos. Olhos que fizeram Anabell pular no gelado Atlântico Norte.

sábado, 21 de maio de 2011

Sobre aquele navio que todo mundo conhece.

Londres, 10 de junho de 1907. James P. Morgan, dono do estaleiro Harland & Wolf, estava na sala de sua casa conversando com seu convidado, o senhor Bruce Ismat, que lhe havia compartilhado uma ideia de construir um navio.
- Um dos grandes! Vai ser maravilhoso, luxuoso e veloz! Um navio para ganhar todos os mares e deles ser consagrado rei, meu amigo!
A ideia foi aceita por James, que fechou um acordo com a White Line naquela mesma semana. Em 31 de março de 1909 iniciou-se a construção daquele poderoso navio. Foram necessários 1700 homens junto com um investimento de 10 milhões de dólares, e o navio estava pronto 27 meses depois. Em 31 de maio de 1911, às 12 horas, o navio foi colocado sobre a água pela primeira vez. Era apenas para teste, sem tripulantes, mas lá estavam Bruce Ismay e James Morgan para admirar aquele gigante. James levou também sua filha de 17 anos, Anabell.
- Como é grande, papai!
- Sim, minha filha. É grande e maravilhoso! E é seu, sabia?
A menina abraçou o pai sorrindo.
A viagem inaugural da deslumbrante embarcação foi adiada do dia 20 de março para o dia 10 de abril de 1912. Anabell estava na cabine deslumbrada com todos aqueles botões e sistemas. Capitão Edward J. Smith adentrou a sala.
- Aqui está Anabell! Seu pai está te esperando lá fora! Toda a imprensa veio registrar nossa partida e ele quer uma foto com a família toda. Vá!
- Com licença, Capitão!
A imprensa estava mesmo em peso lá. Não só a imprensa, mas Londres inteira por sinal. Anabell descia as escadas.
- Perdão, senhorita. - um rapaz trombou-se com ela.
- Tudo bem.
Lindos olhos. Demorou um pouco para que Anabell se lembrasse que estava descendo as escadas.
Foram várias fotos até que finalmente o navio partisse ao som de músicas animadas. Anabell queria conhecer cada parte daquele imenso navio. Era o que ocupava sua cabeça juntamente com o rapaz dos lindos olhos.
- Anabell, eu e seu pai vamos para o bar no segundo piso do navio. Você deve estar com fome, querida. Tem um ótimo restaurante francês daquele lado, passe lá.
A La Carte era o nome do restaurante. Ela se sentou em um sofá que ia de um canto do cômodo ao outro. Pediu um petit gateau e o comia distraidamente quando o rapaz, dono dos olhos que não lhe saíam da cabeça, sentou-se na outra ponta do sofá. Ele tinha um copo de bebida nas mãos e o levantou charmosamente em direção à garota cumprimentando-a. Ela respondeu com um meio sorriso. Agora ela saboreava seu prato calmamente, como se cada pedaço que colocava na boca lhe mostrasse como seria o gosto daquele rapaz com quem ela agora trocava olhares. Anabell já terminara de comer quando o rapaz levantou-se de seu lugar e caminhou em sua direção.
- Meu nome é Adrian, Adrian Vaines.
- Anabell Morgan.
Ele beijou a mão de Anabell. Não foi um beijo curto como os de costume quando se conhecia uma moça. Assim como Anabell através de seu petit gateau, o rapaz parecia estar fazendo o mesmo, imaginando qual seria o gosto daqueles lábios enquanto tocava-lhe as mãos com os seus.
- Posso sentar-me?
- Claro!
Eles conversaram por horas. Riam, brindaram, arrumavam desculpas para se tocarem.
- Já é tarde, Adrian.Preciso ir. Boa noite!
- Até amanhã, Anabell.
Ela saiu. Andava pelo corredor externo do navio em direção ao seu quarto quando sentiu um braço enlaçando sua fina cintura. Uma voz conhecida falou baixo com uma voz quente ao seu ouvido:
- Você precisa mesmo ir agora?
- Adrian...
Ele a puxou e se beijaram. Passaram a noite no quarto dele. Essa e outras noites. Eles se apaixonavam a cada dia de viagem. Até que chegou 15 de abril de 1912.
Anabell e Adrian estavam conversando num dos restaurantes do navio quando um homem entrou visivelmente desesperado.
- O navio está afundando, rápido, corram!
Os dois se olharam numa mistura de confusão, surpresa e desespero. O navio não devia estar afundando, não estava, não podia estar. Mas era verdade. Foi um desespero total.
- Vamos, Anabell! Vou garantir que se salve, venha!
Era uma loucura para entrar nos botes, se tornava quase impossível. Anabell viu Bruce Ismay golpear uma senhora para tomar seu lugar no bote e o olhou com reprovação.
- Meus pais, Adrian, meus pais!
- Anabell!
Mas a moça já tinha saído correndo. Não conseguia encontrar seus pais.
- Anabell! - era o capitão Edward - desculpe. Bruce me mandou navegar a todo vapor, eu não deveria ter lhe dado ouvidos. Eu não soube conduzir seu navio, eu não... eu não... Desculpe!
Um pedaço de metal quebrou o vidro da cabine e acertou Anabell.
Tudo estava escuro.

sábado, 14 de maio de 2011

Sobre a minha confusão interna.

" I'm looking at you through the glass
Don't know how much time has passed
Oh God it feels like forever
But no one ever tells you that forever
Feels like home, sitting all alone inside your head.

How do you feel? That is the question
But I forget... you don't expect an easy answer
When something like a soul becomes
Initialized and folded up like paper dolls and little notes
You cant expect to bitter folks
And while you're outside looking in
Describing what you see
Remember what you're staring at is me

How much is real? So much to question
An epidemic of the mannequins
Contaminating everything
When thought came from the heart
It never did right from the start
Just listen to the noises
(Null and void instead of voices)
Before you tell yourself
It's just a different scene
Remember it's just different from what you've seen

And it's the stars

That shine for you

The stars

That lie to you... "

Through Glass - Stone Sour

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Sobre ocultar.

Ela estava ansiosa. Aquelas horas não passavam. Precisava ouvir a voz dele, precisava de uma resposta. Ela não tinha mentido. Mais cedo ele recebeu uma mensagem no celular: "I smell sex and candy here. Rua 7, Monvelich". Chegando no endereço indicado lá estava a garota. Nua, na cama com outro rapaz. Ela ligou para ele e ouviu coisas horríveis. Mandou várias mensagens perguntando porque tudo aquilo.
- Filha, precisamos conversar.
- Agora não, mãe.
- Você é adotada.
- O quê?!
- E gêmea. Pelo que me consta, seu namorado também precisa saber.

Sobre rotina.

Ele acordou, espreguiçou, levantou, urinou, comeu, bebeu, escovou, vestiu, calçou, olhou, abriu, saiu, fechou, trancou, dirigiu, chegou, cumprimentou, riu, trabalhou, odiou, esqueceu, voltou, comeu, banhou, arrumou, ouviu, dançou, ensaiou, encontrou, bebeu, fumou, viu, beijou, sentiu, saiu, transou, acordou, olhou, tomou, andou, distraiu, esqueceu, assustou, morreu.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Sobre frações.

Aos meus 18 anos estudava na mesma escola que G. Ele sempre chamou muito minha atenção (até demais), mas eu não tive tempo (?) ou oportunidade (?) para entender se eu cheguei a realmente sentir alguma coisa por ele. Afinal, com a gente estudava também P, meu então namorado. Como eu e G não estávamos na mesma sala e eu era tímida demais, não me lembro de termos trocado qualquer palavra. Só mesmo olhares quando passávamos um perto do outro e aquele frio no estômago quando isso acontecia. Ah, como éramos imaturos! Mas enfim... Outro motivo que talvez não tenha me deixado esclarecer as coisas em relação a G é que ele namorava L, da minha sala. P sempre foi um pouco ausente, mas era o jeito dele, nem me incomodava mais. Costume. Cheguei a pensar que essa minha confusão em relação a G pudesse até ser uma forma de suprir essa ausência. Mas o ano acabou sem que eu descobrisse. Nosso último ano escolar. Não soube mais dele, pra onde foi, que faculdade resolveu fazer, se continuou com L... Eu me casei com P. Ele sempre me fez muito feliz. Continuava com aquele seu jeito ausente, mas quando estava comigo, em presença de corpo e alma, me fazia bem. Feliz. A solidão as vezes se acumulava e então eu procurava algo com o que me distrair. Hoje mexendo em caixas antigas, encontrei um papelzinho com o desenho de um coração dividido em quatro partes. Três delas estavam coloridas em vermelho e tinham uma letra P. A parte restante se encontrava branca e tinha um G. Logo abaixo a frase "Você nem sabe que 1/4 é seu. Na verdade nem eu sei..." Ri de mim mesma. Coloquei o papelzinho na bolsa e saí. Talvez eu devesse mencionar que acredito em destino. Andando distraída pela loja de CDs, vi G. Anos se passaram, claro. Mas era impossível não me lembrar daquele rosto que não mudara quase nada (ainda tão lindo!). Para minha surpresa (grande surpresa!), ele me reconheceu e veio em minha direção (Porque eu sem perceber tinha simplesmente travado quando o vi). Sorríamos, mas não sabíamos o que dizer. Só se comunicavam nossos olhos meio assustados meio melancólicos meio apaixonados. Foi então que lembrei do papelzinho na minha bolsa e o entreguei. E agora essa sou eu, contando e explicando para G... Lembrando e ao mesmo tempo (e finalmente!) tentando entender o que foi aquilo. Ou ainda é...

Sobre o vôo.

"Olá, gato. Precisamos conversar." Rasguei o papel. O que eu escreveria depois? "Preciso de ajuda para fugir e agora vou viver com você." Ridículo. Ridículo mesmo é eu ainda estar estudando nesse internato comandado por freiras. Isso nunca foi pra mim. Aliás, nada nunca foi pra mim, por isso meus pais me mandaram pra cá e continuaram suas vidas em Dubai. Eles nunca quiseram filhos, eu fui um puta erro na vida deles. Mas agora quem não se importa mais sou eu. Depois da noite de ontem, nada mais me prende aqui. Eu e Marcos sempre tivemos muita atração um pelo outro. Sempre que ele vinha trazer as encomendas das freiras no internato a gente dava um jeito de se pegar sem que ninguém notasse. Mas sempre ele não podia demorar e ia embora. Ontem não. Ontem eu consegui levá-lo para o meu quarto. Aí sim! Ainda me arrepio só de lembrar da sua voz sussurrando aquelas palavras no meu ouvido. Era o impulso que me faltava para sumir daquele lugar. Amanhã quando ele voltar eu fujo com ele, está decidido. Finalmente conhecerei a liberdade e ainda poderei andar de mãos dadas com a sua irmã... Libertinagem.

sábado, 26 de março de 2011

Sobre um desabafo pessoal - Continuação VII

O tempo parece passar mais rápido quando todas as noites são sempre iguais, sempre escuras. E lá estava Davi, de terno, suando, tremendo dos pés à cabeça na porta da igreja. Era o dia do casamento daquele jovem de 27 anos.
- Segura esse homem antes que ele saia correndo e gritando feito um louco! - era Bruno, o melhor amigo de Davi.
- Cara, me segura mesmo! - e eles riam.
- Mas eu vim mesmo pra te chamar pra entrar porque o casamento vai começar e nós precisamos do noivo no lugar certo.
- Mas Elisa...
- É claro que você não vai ver Elisa antes do casamento, noivo desesperado! Vai pra lá, cara. Rápido, ou sua mãe surta!
- Ai, Deus!
Um carro parou em frente a igreja. Era Elisa. Elisa era linda. Seus traços pareciam ter saído de uma pintura. Ela tinha cabelos negros, olhos castanhos brilhantes e boca de coração.
Uma linda música tomou conta do lugar. Elisa entrava na igreja e seus olhos encontravam os de Davi e se entendiam. Eles se bastavam. O casamento, tão cuidadosamente planejado, foi perfeito. Na festa, os recém casados dançavam juntos.
- Ainda não consigo acreditar que você é minha... - Davi ainda trazia dentro de si aquele menino doce.
Depois de Elisa, Davi voltou a sonhar. Há muito ele não sabia o que era acordar pensando num sonho que durou toda a última noite e tentar decifrar os caminhos que sua mente havia percorrido. Desde aquele tombo na escada que seus pais tinham lhe contado mas que ele não se lembrava. A princípio Davi sonhava com Elisa, com seus pais e seus amigos, com pessoas conhecidas. Eram sonhos perfeitamente normais. Eram.
Certa noite, Davi sonhou com um lugar: uma ponte que passava sobre um lago e chegava a uma casinha muito simpática. Davi atravessava a ponte e batia na porta. Quando ela começava a se abrir, Davi acordava. Esse sonho se repetia por dias seguidos e sempre terminava do mesmo jeito. Terminava sem fim.
- Bom dia, meu amor! Ou devo te chamar de papai?
- Papai?! - Davi acabava de chegar à cozinha para tomar seu café e encontrou Elisa já de pé e com alguns papeis na mão.
- Sim, papai. É como você vai ser sempre chamado por alguém que daqui a pouco vai chegar. - Elisa entregou-lhe os papeis.
Ela estava grávida, Davi seria pai. Eles não podiam estar mais felizes! Naquele mesmo dia Davi foi a uma loja de brinquedos para comprar o primeiro presente do bebê. Na porta da loja havia um senhor fantasiado de palhaço distribuindo balões para as crianças. Davi sentiu-se arrepiar quando viu aquele homem. Ele simplesmente parara no meio da calçada sem conseguir se mover nem tirar os olhos do outro lado da rua. "Um palhaço triste..." - era uma voz feminina, doce, que Davi ouviu dentro de sua cabeça. Num flash Davi viu a imagem de um palhaço com sua maquiagem já toda borrada sentado numa poltrona. Uma lágrima descia por seu rosto. Foram segundos. Davi saiu correndo.
No trabalho não parou de pensar um minuto no que tinha acontecido. Desde quando esse medo de palhaços?
Algumas semanas se passaram até que Davi resolvesse ir em outra loja de brinquedos. Comprou uma bicicleta em miniatura que lhe chamou atenção. Já de saída parou em frente a uma vitrine com bonecos. Eram encantadores... Chegou a pensar se quando criança teve algum boneco. Não se lembrava. Riu da sua falta de memória e virou-se para ir embora.
- Psiu, hei, você!
Instintivamente Davi voltou-se para trás para ver quem estava chamando mas não viu ninguém. Quando seu olhar já ia passar de relance pela vitrine novamente, parou. O que é isso? Os bonecos todos encaravam Davi e podiam se mexer. Foi um soldadinho quem falou com Davi.
- Davi, não é?
Davi se aproximou da vitrine incrédulo.
- Faz muito tempo, eu sei. Talvez você nem se lembre, mas precisamos de você e você de nós.
Davi abaixou e apertou a cabeça.
- Eu não estou louco, não estou. Não estou...
- Você sabe onde deve ir.
Davi olhou para aqueles bonecos mais uma vez e saiu dali o mais rápido que conseguiu. Entrou em seu carro e o trancou. Abaixou a cabeça sobre o volante por um segundo. "O que está acontecendo comigo? Primeiro o palhaço, agora os bonecos. Deus! Eu vou ser pai agora, não posso estar enlouquecendo." Davi se olhou no retrovisor, estava pálido e suava. "Calma, vamos dar uma volta e você vai ver que não há nada de errado."
Davi ligou o som do carro no volume mais alto que alcançava e foi andando sem rumo e sem atenção. Quando deu por si, Davi estava longe da cidade e seu carro indo rapidamente em direção a uma ponte. Davi freou brusca e imediatamente e, no impacto, acabou batendo a cabeça com muita força no volante. Davi desmaiou.

"Comprador deste boneco, te peço, me ajude!"


"E Kim dá mais um de seus saltos fantásticos! E quando encosta na ponte não é mais uma boneca inanimada"

"O que deseja, pequeno rapaz?
Vim para a brincadeira"

"Você consegue ouvir atentamente a uma história, rapaz?"

"Sonhei com Guri."

"Você gostaria de fabricar bonecos?"

"Os bonecos ensinam tudo o que você precisar aprender..."

"Sim, eu quero!"

"É o seguinte: quero criar um boneco de mim, como um clone."

"Não acha um pouco perigoso?"

"A oficina é realmente incrível, Davi!"

"Ele nunca se atrasa."

"Era Davi estrangulando Davi!"

"Um... palhaço?!"

"Mãe, fala comigo! Eu sei que você está aí dentro agora."

"Um palhaço triste"

Um farol.

- Ah!
Vozes, imagens, tudo se misturava na cabeça de Davi que acordava de repente, assustado.
Agora ele se lembrava de tudo, seus bonecos, Albert Syn, o palhaço... E sabia onde estava.
Davi desceu do carro e atravessou a ponte. Bateu na porta.
- Ah, Davi! Eu sabia que você viria! - ele ainda era o velho palhaço.
- O que acontece agora? - Davi estava confuso, 18 anos haviam se passado.
O Palhaço colocou nos braços de Davi um boneco, um boneco com os mesmos traços de Davi e que parecia ter uns 9 anos; ele dormia. Davi observou o boneco, se observou em seus braços e seus olhos marejados se voltaram para o Palhaço sem saber o que falar.
- Bonecos são grandes professores, Davi. E além disso, como você mesmo deve ter visto, são mestres em dar segundas chances.
- E então, Davi - era ela, aquela linda boneca que agora parecia extremamente familiar a Davi - está pronto para ter sua segunda chance?

sábado, 19 de março de 2011

Sobre um desabafo pessoal - Continuação VI

Paredes todas brancas, alguma folhagem num canto, pessoas passando de um lado para o outro enquanto outras se sentam num sofá - também branco -, seu silêncio revelando a tensão em que se encontram. Salas de espera de hospitais são sempre iguais. Hoje quem se sentava no sofá branco em silêncio eram Aline e Ricardo, que esperavam notícias do seu filho, Davi.
- Vocês são os responsáveis de Davi Scolétte? - era um jovem médico que adentrava a sala.
- Sim! Como está nosso filho, doutor?
- Agora está bem, sob todos os cuidados, podem ficar tranquilos. Os senhores podem me acompanhar até a minha sala um instante, por favor? Por aqui ...
Os pais ainda aflitos sentaram-se nas cadeiras de frente ao médico que, Aline podia ler agora em seu jaleco, se chamava Luiz.
- Bom, a informação que recebi foi a de que vocês não estavam presentes no momento em que seu filho se acidentou, certo?
- Sim. Davi saiu de casa com a bicicleta logo após o almoço dizendo que ia na casa do Bruno, seu amigo. Só agora no fim da tarde, com o telefonema do hospital, que voltamos a ter notícias de Davi.
- Entendo. Bom, segundo o motorista, que foi quem chamou a ambulância, Davi estava pedalando de maneira muito acelerada o que pode ter lhe provocado um desmaio e, nesse momento, uma van vinha fazendo a curva em que ele se encontrava e acabou, inevitavelmente, se chocando com o garoto que, além de estar em estado quase desacordado, se encontrava na contra mão.
Aline não conseguiu conter o choro ao imaginar o que havia acontecido com seu pequeno menino. Ricardo abraçou a mulher.
- O motorista freou imediatamente ao ver o garoto, o que reduziu o impacto do que poderia ter sido um acidente fatal. Fisicamente, ele quebrou o braço direito, teve alguns cortes pelo corpo e pode sentir também dores devido ao choque do corpo e cabeça com o chão, mas nada muito grave e tudo devidamente tratado. Quanto ao psicológico é o que quero explicar a vocês. É frequente a perda de memória em pessoas que passaram por eventos traumáticos, é o que a medicina chama de amnésia traumática. A desaceleração no momento da colisão faz com que o cérebro seja jogado violentamente para frente e para trás e se choque com a parte óssea da cabeça. Nessas circunstâncias, a vítima pode sofrer alterações na coordenação motora, na fala e até no nível de consciência. Por fim, há o efeito psicoemocional, no qual o cérebro, por meio de uma espécie de mecanismo de defesa, bloqueia as lembranças relacionadas ao trauma. É impossível prever se a vítima pode voltar a se lembrar ou não. No caso de Davi, como ele estava desmaiando exatamente no momento do choque, e ele ainda se encontra sedado, não há como afirmar essas possibilidades. Nós vamos o manter desacordado ainda por um tempo enquanto fazemos mais exames. Quando Davi acordar teremos mais respostas e, claro, vocês serão informados. Tudo bem?
- Certo, doutor. Há alguma previsão de quando Davi poderá acordar? - Agora era Ricardo quem falava, ou tentava falar.
- Bom, como o choque não foi aparentemente tão grave, dentro de um ou dois dias.
- Certo.
- Agora, se me dão licença, tenho mais pacientes me esperando. Fiquem a vontade. - doutor Luiz deixou a sala.
- O nosso Davi, Ricardo!
- Ele vai ficar bem, meu amor.

Estava tudo um pouco embaçado, mas Davi conseguia identificar uma luz, ouvir barulhos emitidos por aparelhos, sentir que estava deitado. Fechou ou olhos, apertou-os bem e abriu-os de novo.
- Pai? Mãe?
- Davi! - Aline acariciava o filho.
- Como você está, campeão?
- Hã, não sei... Se eu soubesse como vim parar aqui até responderia. O que aconteceu?
É, parece que ele não vai mesmo se lembrar.
- Você caiu, meu amor. Caiu da escada quando descia para tomar café.
- Eu sabia que tinha que parar de descer aquela escada correndo, vocês já tinham me falado!
Aline e Ricardo sorriram. O primeiro sorriso em três cansativos dias de estadia num quarto de hospital.
- Bom dia! Então você resolveu acordar, garotão? - era o doutor Luiz que entrava no quarto - Como se sente, alguma dor? - e mexia em Davi enquanto falava.
- Só um pouco. Essas escadas... Sabia que uma vez eu quebrei meu pé fazendo essa mesmo burrice, doutor? Descer escadas correndo!
E eles sorriram. Não era um riso de quem se alegra, era quase um riso de pena de um menino que, ainda fraco, se culpava por algo que nem havia acontecido. Mas ainda assim era um riso.
- Agora vamos ver então se você aprende! Ricardo, você pode me acompanhar, por favor?
Os dois saíram da sala.
- Bom, pelo que eu entendi Davi não se lembrou e vocês já trataram de resolver com uma escada.
- Nós não sabíamos o que fazer...
- Tudo bem, pelos exames eu já esperava que ele não se lembrasse e é natural que pedisse uma explicação. No mais, foi só a memória que falhou, as outras possíveis consequências, felizmente, não foram observadas. Enfim, ele fica aqui por mais uns três dias só por garantia e depois está liberado.
- Obrigado, doutor!

Davi não sonhava, só dormia sem nenhum lampejo de imaginação. O escuro dos seus sonhos deu lugar à luminosidade do dia que nascia depois de suas "primeiras" três noites. Ele recebera alta.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Sobre um desabafo pessoal - Continuação V

Tudo parecia girar freneticamente. Era muita informação, muitos pensamentos, muitas lágrimas... Muita dor. Davi sentia pena daquele palhaço. "Perder o alguém mais importante que se tem e ficar praticamente sozinho..."
- Davi! - Davi correu, simplesmente correu.
Saiu da oficina, atravessou a ponte, pegou sua bicicleta onde o boneco dele mesmo a havia deixado e saiu a pedalar. Pedalava muito rápido, no ritmo de seus pensamentos. Pedalou até quando conseguiu, para o nada, pra longe... De repente parecia ter ficado tudo branco dentro da cabeça de Davi. Ele não pensava em mais nada, não tinha mais forças para pedalar. Sua respiração era ofegante, seu coração descompassado. Davi desmaiou na estrada.