Chegando, trancou a porta e foi deixando rastros pela casa
enquanto andava, como se desmontasse. Bolsa, sapatos, casaco, brincos,
chaves... Virou os porta retratos -com sua foto de criança acompanhada dos pais
e a foto adulta com o namorado ausente – para baixo. Tirou as roupas que ainda
lhe restavam no corpo e colocou um blusão. Ligou baixo o som na sala e foi para
a cozinha preparar uma dose do que tivesse no armário.
Passou por todos os canais da TV até desliga-la. Revirou-se
em todas as posições imagináveis e inimagináveis pelo sofá até parar estirada
no chão. Fechou os olhos por alguns minutos. Escuro.
Desligou o som e voltou para a cozinha. Enquanto preparava
outra dose, o reflexo do sol no armário atingiu-lhe em cheio o rosto. Ela virou
de costas e viu a enorme porta da sala para a varanda. Caminhou até lá, viu o
sol se punha e acompanhou com a cabeça um pássaro que mergulhava cortando o ar
à sua frente. Olhou para baixo, recostou a cabeça no parapeito como se
cochilasse. Fechou bem os olhos, respirou fundo e ergueu-se.
Vou pular.
Passou uma perna sobre o parapeito. E a outra.
Sentada, olhou para baixo – os carros e pessoas passando – e
sentiu medo da altura. Virou-se rapidamente a cabeça para frente.
Alguém a observava. Era um homem no prédio em frente ao seu,
15º andar. Estava sem camisa, parado à sacada num jeans claro. Fez que não com
a cabeça para Lisandra, ao ponto em que ela começou a chorar. Ele fez sinal
para que ela esperasse e entrou. Pouco depois voltou à sacada com uma rosa
vermelha na mão. Ergueu-a em direção à Lisandra e depois jogou-a. Um voo livre
até o asfalto que fez Lisandra desequilibrar-se enquanto acompanhava.
Recuperando o equilíbrio e o susto, ela olhou novamente para o homem, agora
assustado. Ela não conteve mais algumas lágrimas e fez que não para ele num
gesto de cabeça. Foi quando então ele passou uma perna por sobre o parapeito, e
a outra. Estavam agora os dois sentados às suas varandas. Um olhando fixa e
profundamente para o outro. Ficaram assim por alguns minutos, como se suas
almas se tocassem e deixassem entender. Lisandra impulsionou-se mais um pouco
para frente e observou que o homem fez o mesmo. E de novo. Quase já de pé, os
dois, a um suspiro da queda, Lisandra reparou uma única lágrima percorrer o
rosto daquele homem.
Como um reflexo, Lisandra suspirou como se puxasse um pouco
de vida junto com o ar frio. Sentou-se novamente e o mesmo fez o homem. Voltou
uma perna para dentro da varanda e a outra. E o homem.
De pé, cada um dentro de sua respectiva sacada, continuaram
a se olhar.
Ele sorriu.
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