"Comece pelo começo - respondeu o Rei, muito sério - E vá até o fim. Quando terminar, pare." (Alice no País das Maravilhas - Lewis Carroll)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Sobre eu, ele, ela.

- Não se vá, Rosemere! Ele disse ao fechar a porta. Sou um gênio!
O gênio que falava sozinho era Alfredo. Desde pequeno desenvolvera um grande interesse pela leitura. Colecionava obras de todos os gêneros publicadas em todo o mundo e trocava qualquer experiência por uma boa e solitária leitura. Sempre quis escrever. Se esforçava ao máximo por horas a fio mas não conseguia. Não tinha o dom... Enlouqueceu. Com os pais misteriosamente mortos, vive hoje numa casa que está sempre fechada, mas onde passa a maior parte do seu tempo, saindo apenas para comprar alimentos e livros. Todas as pessoas com quem se encontrava na rua viam nele uma pessoa estranha, doente e perturbada... Tinha pena dos pais que o criaram com tanto afeto e agora, mesmo mortos, o sustentavam com uma gorda pensão e herança. Há quem o acuse de ser o responsável pela morte dos pais, aquele louco! Era doente, deveria estar internado. 

- Um brinde à sua nova obra, meu amor!
- Ah, Rose! Minha vida! Um brinde a você por me oferecer essa personagem maravilhosa!
- Um best seller na certa, Alfredo! Mais um para a sua carreira! Prepare-se para mais coquetéis, autógrafos, fotos, entrevistas...
- E você prepare-se para nossa próxima viagem!
Alfredo era um escritor de grande sucesso. Vaidoso, casara-se com Rose, uma atriz, e decidiram não ter filhos. Vivem luxuosamente em meio a festas e trabalhos de altíssimo valor. Sempre presentes na mídia, são o casal mais querido dos jornalistas sérios e baratos. O último livro de Alfredo era um romance feito em homenagem à sua esposa e seria lançado na próxima semana. Os preparativos corriam para o grande lançamento que seria realizado nos estúdios de gravação onde ela trabalhava. Depois uma série de noites de autógrafos por vários lugares do país.

Alfredo acordou naquela sexta feira comum. Saiu da casa fechada e foi ao mercado mais próximo para comprar comida. Ao sair viu um cartaz fixado no vidro do caixa onde se lia "Lançamento do livro 'Rose' do premiado autor Alfredo Lopes!". Era daqui três dias. Alfredo pegou o cartaz e levou para casa. Não conseguia tirar os olhos do pequeno papel. Era seu nome, ele era Alfredo Lopes. Mas não se lembrava de ter escrito um livro com o título "Rose". Não se lembrava de ter escrito livro algum. Que brincadeira era aquela? Ele iria naquele evento tirar a história a limpo.

A cidade pequena estava cheia. Parecia que todos os moradores decidiram comparecer ao lançamento do livro. Alguns foram realmente pela leitura, outros pelo autor, outros pela esposa atriz, outros só para ter o que fazer, já que a cidade não era tão movimentada para eventos. Alfredo distribuía autógrafos, sorrisos e fotografias enquanto Rose conversava amigavelmente com os presentes. Alfredo chegou e assustou-se com a quantidade de pessoas. Ficou parado à porta observando por alguns minutos. Subiu as escadas e ficou num canto pensando qual daquelas pessoas estaria usando o seu nome. Viu uma pilha de livros de capa vermelha onde lia-se "Rose" em letras douradas. Pegou o livro e teve uma sensação até então desconhecida por ele. Era como se segurasse veludo... E o cheiro de rosas...
- Boa noite! - era Rosemere, o cheiro de rosas atrás de Alfredo.
Ele ficou hipnotizado com os olhos azuis de Rose. Não conseguiu sequer responder...
- Está tudo bem?
- Com licença - Alfredo saiu andando a passos largos e só parou dois quarteirões depois se dando conta de que espremia o livro sobre o peito sem ar. Olhou mais uma vez o livro e sentiu o perfume de rosas. Os olhos azuis... Limpou o suor que lhe escorria pela face e andou até sua casa. Leu o livro inteiro sem conseguir parar, madrugada adentro... Aquelas palavras eram dele. Ele tinha certeza! "- Não se vá, Rosemere!". Ninguém além dele terminaria o livro dessa maneira, com aquela frase. Alguém se passava por ele! Alfredo iniciou uma busca por todas as informações do autor. Ambos nasceram no mesmo dia e mês, porém Alfredo era um ano mais velho que o Alfredo Lopes do livro. Ambos órfãos. Era um absurdo! Como pode?! Como pode?! Alfredo movia-se freneticamente pela sala, Sentava-se balançando na cadeira, passava as mãos no rosto limpando o suor com desespero, puxava seus cabelos. Falava sozinho:
- Os meus lapsos de memória! É ele! Eu escrevo, ele rouba minha produção e me faz esquecer. Ladrão! E Rose, Rose, oh, Rose! Ela é minha esposa! Minha!!! Canalha! Ele vai me pagar por tudo que roubou de mim! Vou recuperar minha vida, tirá-la dele! Tirar a dele! Alfredo Lopes! Al-fre-do-lo-pes! Eu! Só eu! Sou eu! Eu sou o escritor! O único! Eu sou Alfredo Lopes! O único Alfredo Lopes!

sábado, 13 de setembro de 2014

Sobre o corte.

Juarez e Verinha casaram-se ela tendo 17 anos a menos que ele. Os amigos dele diziam:
- Abre o olho, Juarez! Agora não faz diferença mas quando você estiver entravado na cama e ela quiser sair pra dançar, aí quero ver como há de ser!
Mas Juarez não se importava. Nem Verinha. Sua preocupação se limitava à fortuna do futuro marido e como ela seria gasta em joias e roupas.
Pouco tempo depois de casados, Verinha arrumou um amante, um namorico antigo de infância que reapareceu ao saber do casamento. Juarez se queixava de muita dor de cabeça e de não enxergar bem, "são os chifres", pensava a esposa, mas dizia:
- O que pode ser, benzinho?
- A idade chegando, meu amor... Sinto aparecerem os problemas da vista. Preciso de um oftalmologista. Quando você pode me levar?
Verinha não o deixava sair sozinho, era muito ciumenta e sofria horrores ao pensar em perdê-lo. Certa vez ela se questionou se isso não seria amor. Logo descartou a possibilidade. Ela linda e jovem amando aquele velho? Não! Era só o dinheiro mesmo.
- Vou marcar ainda esta semana, benzinho.
Marcou e lá foram os dois. Juarez tinha um grave problema de vista que poderia cegá-lo se não tratado. O médico disse o diagnóstico apenas para a mulher de forma a não afligir o velho senhor. Receitou alguns colírios e lançou a ideia de uma possível cirurgia. A mulher não quis contar ao marido e foram conversando sobre outros assuntos até a volta para casa. Naquela mesma noite foi encontrar-se com o amante. Sobre o assunto, ele disse:
- Ah, neném... Não conta nada não, o velho não demora pra bater as botas, talvez isso até adiante o processo... Deixa como está. E eu também não vejo a hora de ser seu marido.
Ela então não contou a verdade ao marido. Ele foi perdendo a visão e ela o enrolando nas idas ao oftalmologista. Quando Juarez já quase não via mais nada, Verinha contratou uma enfermeira para cuidar dele. Contratou uma solteirona, feia que dói, evitando o risco de ser trocada.
- Meu benzinho, essa é a Jurema, vai me ajudar a cuidar de você. Vou deixar os dois aí que preciso ir ao banco. Te amo, meu Juju!
- Adeus, meu amor! Como é boa minha esposa... Como vai, Jurema?
- Bom dia, senhor Juarez!
A voz de Jurema era música aos ouvidos... O que lhe faltava de beleza física fora para a voz.
Verinha foi para a casa do amante. Reclamou de novo da mania dele de colocar vasos de flor em prateleiras na parede em que a cabeceira da cama apoiava. Mal sabia ela...
Estavam os dois na cama quando um desses vasos caiu e cortou-lhe a testa. 
- Jurema, venha aqui!
Era Verinha chegando em casa. Jurema abriu a boca ao ver o curativo na testa da madame.
- Mas o que foi isso?!
- Caí de uma escada, Jurema, mas estou bem... Juarez não vai conseguir enxergar o curativo, ele não precisa saber...
Jurema não contou nada a Juarez. Mas uma amiga de Jurema que era dona de um pensionato, ligou para contar que hoje caíra um vaso na cabeça de uma mulher que ela sabia ser casada que se encontrava há anos lá com seu amante. Jurema indignou-se. Passou duas semanas pensando no assunto até que resolveu...
- Senhor Juarez...
- Ah, Jurema! Que voz doce a que você tem!
- Obrigada, senhor Juarez. Mas o que tenho para lhe falar não será tão doce...
Ao chegar em casa naquela tarde, Verinha não encontrou ninguém. Aproximou-se da cômoda e viu papeis. Eram papeis de divórcio e um bilhete: "A voz de Jurema é tão doce..."
Fora trocada. Verinha chorou de desespero e ao levantar o rosto viu-se no espelho e com ela a marca da sua culpa. Bem no meio da testa.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Sobre fantasminhas.



Ernesto, 87 anos, velho carismático, língua afiada, bem humorado, descarado, morrendo de cirrose hepática. Ele estava deitado na cama de sua casa quando pediu que seus netos entrassem. Eram cinco. Luis de 23 anos, Débora de 20 anos, Kaik de 18 anos, Luíza de 15 anos e Rafael de 3 anos.
- Queridos netinhos, o negócio é o seguinte. O vovô tá indo pra highway to hell e como ama muito vocês tem alguns conselhos pra dar. Eu nunca fui muito certo da cabeça e aconselho vocês a fazerem o mesmo. E como eu bem sei que muitos de vocês herdaram meu sangue de porra louca, aqui vão alguns conselhos: façam da vida de vocês o que quiserem. Se alguém falar o contrário concorda na hora, vira as costas e faz o que quiser. Se for uma coisa muito brava pode até mandar ir pro inferno em silêncio, um dia você vai morrer e ninguém vai lembrar das suas maravilhosas palavras de afeto. Só vocês sabem o que é bom pra vocês. Ou não. Mas em algum momento vocês vão ver qual das opções é a certa. Eu vi quando conheci sua vó. A melhor coisa da minha vida foi ter dado um jeito de amarrar sua vó em mim e deixar ela aqui comigo até hoje. Ela vale mais pra mim do que tudo no mundo, do que cada gota de álcool que hoje mata meu fígado e várias outras merdas que já estiveram em mim. Sua vó é foda! Ela é boa em tudo, e em coisas que vocês não precisam saber também. Quando eu tiver mortinho, se segura nela. Só pra finalizar a parte dos "conselhinhos" de velho gagá, Kaik, vodka é coisa de viado. Se você quer beber, pega a chave embaixo do vaso na porta de entrada e abre aquele porão que fica escondido debaixo da grama lá no fundo. Vasculha aquilo ali e vê se vira homem.
Rafael dava gargalhadas no chão.
- Passemos pra mim agora, o astro dos últimos dias. Eu quero que vocês me enterrem nu. Assim ninguém vai querer ficar naquela bosta de velório por muito tempo e acaba rápido com essa babaquice. E outra, me enterrem com muitos, mas muitos cogumelos, não sei como vai ser essa viagem pro além, vai que eu preciso. E, o mais importante, cuidem da sua vó. Débora e Luíza, certifiquem-se de que vocês serão companheiras tão maravilhosas como ela foi pra mim. Cacete, eu amo sua vó. – ele suspirou longamente – É isso, crianças. Agora vão embora porque eu preciso peidar e ultimamente isso tem fedido como o inferno. Puta que pariu, eu tô podre.
Ernesto morreu oito dias depois. Foi enterrado com seu melhor terno azul marinho e rosas brancas. Ninguém entendia porquê seus netos riam tanto no gramado ao lado.

domingo, 20 de julho de 2014

Sobre alter egos.

Eu devo mesmo ser um homem triste. Ela pensou enquanto colocava o ponto final do seu último conto. Estava sentada sozinha à mesa de um tradicional bar francês em frente a uma praça... Tomava seu chá calmamente e fumava seu cigarro. Nas mesas a sua volta estavam um jovem casal, uma mãe com sua filha, um casal de idosos, dois amigos... Ela conseguiria facilmente desenrolar uma história para cada mesa...

O jovem casal conversava com o olhar... A moça pensava que finalmente encontrou o homem da sua vida, já planejava o noivado, casamento, lua de mel e filhos. Mas sorria e passava a mão pelos cabelos como quem não quer nada pra disfarçar... O rapaz pensava que daqui vinte minutos começava a partida decisiva do seu time de futebol. Ou seja, ele tinha vinte minutos pra arrumar um jeito de tirar a nova namorada dali, chegar em casa, pegar uma cerveja e se segurar no sofá. Mas ela não podia saber disso, ele tinha que demonstrar que estava indo embora porque... Porque... Porque estava cansado. Muito cansado. Ele bocejou.

A filha não desgrudava do celular, conversando com 15 amigos ao mesmo tempo e mais 3 rapazes, já que ela ainda não decidira com qual dos três iria ficar definitivamente. A mãe, obviamente se sentindo sozinha, se perguntava porque a filha escolhera ficar com ela no divórcio e não com o pai, já que as duas nunca se deram bem e ela sempre acaba se sentindo sozinha. Nas próximas férias e filha definitivamente ficaria com o pai e ela viajaria pra um lugar bem quente pra poder andar sob o sol e quem sabe não encontrar um novo amor...

O casal de idosos estava em silêncio. Mas não um incômodo silêncio cortante. Um silêncio pacificamente leve e apaixonado. Eles olhavam um para o outro, com um semblante sorridente e se acariciavam as mãos sobre a mesa. Estavam na França à passeio... Ambos pensavam na sua longa vida juntos, os filhos, netos... Como foram felizes e como o seu amor permanece forte. Eles sabem com toda certeza que fizeram a escolha certa.

Esses dois amigos conversando não são só dois amigos. São gays, querem namorar, mas não sabem ainda. É só o tempo de se despedirem pra acontecer um beijo roubado e estar tudo certo.

E eu, bem... Eu sou uma mulher relativamente jovem, que optou por ficar sozinha. Sou escritora e tento parar de fumar há 3 anos. Sou uma solitária incurável. Talvez por isso tenha abandonado todos os meus amores da juventude... Essa é a história da mulher que se senta sozinha à mesa. Mas a verdade está no que eu escrevo... Naturalmente as palavras saem de mim numa primeira pessoa masculina. E as minhas histórias, bem... Pegue um livro meu que você vai entender que eu não sou a pessoa mais engraçada que você vai conhecer na vida. É, sim... Eu sou um homem triste.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Sobre memórias.

Eles estavam na sala, olhando silenciosamente um nos olhos do outro.
- O que foi?
- Nada... - ela disse e levantou-se em direção ao quarto.
"Desde que senti o cheiro dela em você, nada nunca foi igual. Desde aquela noite, quando você me beija o meu primeiro sentido a ser ativado é o olfato. Eu sinto seu cheiro antes de aproveitar seu beijo. E a cada vez que você me beija, um pedaço de mim é arrancado. Naquele dia eu consegui me esquivar de você, mas essa lembrança não se esquiva de mim." , ela pensou.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Sobre bons entendedores.



A minha vizinha tinha um gato. Daqueles com espírito de gato mesmo, que só aparecem pra incomodar. Todos os dias eu pedia à minha esposa que fechasse a porta da varanda pra que ele não entrasse. Ela dizia repetidamente “- Você está certo, você está certo. Vou fechar com trava!”. No outro dia a porta estava aberta, cheia de arranhões e havia cortinas rasgadas na casa.
- Você não disse que fecharia a porta?
- Devo ter ficado com sono e me esquecido, querido. Isso não acontecerá de novo.
No outro dia, leite espalhado por toda a cozinha e eu quase levo um tombo daqueles!
- Me desculpe, querido. Isso não acontecerá de novo.
No outro dia minha coleção de orquídeas com vasos quebrados e pétalas despedaçadas.
- Me desculpe, querido. Isso não acontecerá de novo.
No outro dia um presentinho fedido do gato bem na minha poltrona.
- Me desculpe, querido. Isso não acontecerá de novo.
No outro dia, saindo de casa para o trabalho me deparo com o projetinho de felino no meu caminho. Sentado impassível à minha frente, olhando para mim e miando como quem não quer nada. Quanta audácia!
Naquele dia quem trancou todas as portas e todas as janelas fui eu.  Basta de intrusos na minha casa. Chega de gatos na minha vida!
- Agora, querida, isso realmente não acontecerá de novo.



Minha metafórica vizinha tinha, metaforicamente, um gato metafórico.

Sobre engolir seco.



É difícil assumir quando algo está fadado ao fracasso. 
Meu vizinho, por exemplo. Pintava belos quadros, mas resolveu abrir uma padaria. Não sabia fazer pão nem conseguiu contratar quem soubesse. Faliu. A ruivinha do meu ensino médio. Amava química, louca de ficar o dia todo no laboratório. Resolveu fazer Direito. Trancou no segundo período. Meu primo, coitado, esforçado mas não sabe nem de longe cantar. Quis ser vocalista de banda. Ficou tudo tão ruim que ele se deprimiu e suicidou-se. Minha mulher não gosta de mim. Casamos porque... Sei lá porquê. Eu pedi e ela inexplicavelmente aceitou. Bem...



Alguns dentes de leão depois, meu vizinho abriu uma galeria e voltou a pintar quadros. É um sucesso! A minha colega ruiva acaba de ganhar um prêmio de química por alguma coisa que ela fez que não me interessou muito ler. Meu primo descansou, encontramos cartas dele que nos confortaram de muitas maneiras.




E eu... Bem, eu...




Suspiro.