"Comece pelo começo - respondeu o Rei, muito sério - E vá até o fim. Quando terminar, pare." (Alice no País das Maravilhas - Lewis Carroll)

domingo, 20 de julho de 2014

Sobre alter egos.

Eu devo mesmo ser um homem triste. Ela pensou enquanto colocava o ponto final do seu último conto. Estava sentada sozinha à mesa de um tradicional bar francês em frente a uma praça... Tomava seu chá calmamente e fumava seu cigarro. Nas mesas a sua volta estavam um jovem casal, uma mãe com sua filha, um casal de idosos, dois amigos... Ela conseguiria facilmente desenrolar uma história para cada mesa...

O jovem casal conversava com o olhar... A moça pensava que finalmente encontrou o homem da sua vida, já planejava o noivado, casamento, lua de mel e filhos. Mas sorria e passava a mão pelos cabelos como quem não quer nada pra disfarçar... O rapaz pensava que daqui vinte minutos começava a partida decisiva do seu time de futebol. Ou seja, ele tinha vinte minutos pra arrumar um jeito de tirar a nova namorada dali, chegar em casa, pegar uma cerveja e se segurar no sofá. Mas ela não podia saber disso, ele tinha que demonstrar que estava indo embora porque... Porque... Porque estava cansado. Muito cansado. Ele bocejou.

A filha não desgrudava do celular, conversando com 15 amigos ao mesmo tempo e mais 3 rapazes, já que ela ainda não decidira com qual dos três iria ficar definitivamente. A mãe, obviamente se sentindo sozinha, se perguntava porque a filha escolhera ficar com ela no divórcio e não com o pai, já que as duas nunca se deram bem e ela sempre acaba se sentindo sozinha. Nas próximas férias e filha definitivamente ficaria com o pai e ela viajaria pra um lugar bem quente pra poder andar sob o sol e quem sabe não encontrar um novo amor...

O casal de idosos estava em silêncio. Mas não um incômodo silêncio cortante. Um silêncio pacificamente leve e apaixonado. Eles olhavam um para o outro, com um semblante sorridente e se acariciavam as mãos sobre a mesa. Estavam na França à passeio... Ambos pensavam na sua longa vida juntos, os filhos, netos... Como foram felizes e como o seu amor permanece forte. Eles sabem com toda certeza que fizeram a escolha certa.

Esses dois amigos conversando não são só dois amigos. São gays, querem namorar, mas não sabem ainda. É só o tempo de se despedirem pra acontecer um beijo roubado e estar tudo certo.

E eu, bem... Eu sou uma mulher relativamente jovem, que optou por ficar sozinha. Sou escritora e tento parar de fumar há 3 anos. Sou uma solitária incurável. Talvez por isso tenha abandonado todos os meus amores da juventude... Essa é a história da mulher que se senta sozinha à mesa. Mas a verdade está no que eu escrevo... Naturalmente as palavras saem de mim numa primeira pessoa masculina. E as minhas histórias, bem... Pegue um livro meu que você vai entender que eu não sou a pessoa mais engraçada que você vai conhecer na vida. É, sim... Eu sou um homem triste.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Sobre memórias.

Eles estavam na sala, olhando silenciosamente um nos olhos do outro.
- O que foi?
- Nada... - ela disse e levantou-se em direção ao quarto.
"Desde que senti o cheiro dela em você, nada nunca foi igual. Desde aquela noite, quando você me beija o meu primeiro sentido a ser ativado é o olfato. Eu sinto seu cheiro antes de aproveitar seu beijo. E a cada vez que você me beija, um pedaço de mim é arrancado. Naquele dia eu consegui me esquivar de você, mas essa lembrança não se esquiva de mim." , ela pensou.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Sobre bons entendedores.



A minha vizinha tinha um gato. Daqueles com espírito de gato mesmo, que só aparecem pra incomodar. Todos os dias eu pedia à minha esposa que fechasse a porta da varanda pra que ele não entrasse. Ela dizia repetidamente “- Você está certo, você está certo. Vou fechar com trava!”. No outro dia a porta estava aberta, cheia de arranhões e havia cortinas rasgadas na casa.
- Você não disse que fecharia a porta?
- Devo ter ficado com sono e me esquecido, querido. Isso não acontecerá de novo.
No outro dia, leite espalhado por toda a cozinha e eu quase levo um tombo daqueles!
- Me desculpe, querido. Isso não acontecerá de novo.
No outro dia minha coleção de orquídeas com vasos quebrados e pétalas despedaçadas.
- Me desculpe, querido. Isso não acontecerá de novo.
No outro dia um presentinho fedido do gato bem na minha poltrona.
- Me desculpe, querido. Isso não acontecerá de novo.
No outro dia, saindo de casa para o trabalho me deparo com o projetinho de felino no meu caminho. Sentado impassível à minha frente, olhando para mim e miando como quem não quer nada. Quanta audácia!
Naquele dia quem trancou todas as portas e todas as janelas fui eu.  Basta de intrusos na minha casa. Chega de gatos na minha vida!
- Agora, querida, isso realmente não acontecerá de novo.



Minha metafórica vizinha tinha, metaforicamente, um gato metafórico.

Sobre engolir seco.



É difícil assumir quando algo está fadado ao fracasso. 
Meu vizinho, por exemplo. Pintava belos quadros, mas resolveu abrir uma padaria. Não sabia fazer pão nem conseguiu contratar quem soubesse. Faliu. A ruivinha do meu ensino médio. Amava química, louca de ficar o dia todo no laboratório. Resolveu fazer Direito. Trancou no segundo período. Meu primo, coitado, esforçado mas não sabe nem de longe cantar. Quis ser vocalista de banda. Ficou tudo tão ruim que ele se deprimiu e suicidou-se. Minha mulher não gosta de mim. Casamos porque... Sei lá porquê. Eu pedi e ela inexplicavelmente aceitou. Bem...



Alguns dentes de leão depois, meu vizinho abriu uma galeria e voltou a pintar quadros. É um sucesso! A minha colega ruiva acaba de ganhar um prêmio de química por alguma coisa que ela fez que não me interessou muito ler. Meu primo descansou, encontramos cartas dele que nos confortaram de muitas maneiras.




E eu... Bem, eu...




Suspiro.

sábado, 24 de maio de 2014

Sobre a praça da matriz.



Eu engraxo sapatos. Não me lembro ao certo como aprendi o ofício, era só mais um menino de rua até encontrar uma caixa de engraxate. Enquanto faço meu trabalho, ouço os grandes homens conversarem sobre suas senhoras, seus trabalhos difíceis, seus papeis importantes, seus horários confusos, e uma política complicada. Conheço todos os tipos de sapatos, do mais elegante ao mais casual, mesmo sabendo que nunca colocarei algum deles nos meus pés pretos de poeira da rua. Não sei ler ou escrever, mas não sou bobo. Sei o que significa ser inteligente e ser culto. Eu fico calado enquanto os grandes homens disputam na garganta quem fala mais alto e no estômago quem é mais gordo. Eu fico calado mas eu escuto; escuto, conheço e sei de muitas coisas que eles nem imaginam. Não tenha pena de mim ao passar pela praça e me ver descalço encurvado aos pés dos senhores. Eu sou alguém na vida. Escreva sobre mim! Eu engraxo sapatos.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Sobre pulso.





“Somewhere beyond the pain there’s me. And I won’t rest until the world knows the name Isadore.”




Nós nos conhecemos no hospital, ela era médica e eu tinha quebrado a perna. Ela passou por mim carregando uma criança no colo até o carro onde sua mãe esperava, o beijou  e, de repente, eu vi, de alguma forma, a mulher da minha vida ali. Eu precisava conhecer aquela garota. Então ela veio até mim, cuidou da minha perna e quando eu estava indo embora do hospital a convidei para sair. Ela aceitou. Nós jantamos juntos a semana toda, até que ela me deixasse beijá-la, o que fez meu mundo virar de cabeça para baixo. Nós engatamos um relacionamento e três anos depois ela se tornou minha linda esposa. Eu sempre sonhei em ser pai, então eu propus para ela que deveríamos tentar. Chorando, ela me disse que tinha tal doença que não a permitia ter filhos. Ela me pediu desculpas como se tivesse culpa. Eu estava triste, não posso negar, mas eu compreendi, e me machucava vê-la triste. Duas semanas depois, ela recebeu um convite para trabalhar voluntariamente na África, cuidando de crianças. Primeiro eu fiquei “Não, é claro que você não pode simplesmente ir embora!”, mas então nós conversamos e eu vi novamente quão bonito era o espírito da minha esposa quando ela me disse com todo o seu amor sobre as vidas que ela poderia salvar. Nós decidimos que mudaríamos os dois para a África, então. Ela foi um mês antes de mim porque eu tive que ficar para organizar nossas coisas. Durante esse tempo, ela me mandou cartas falando sobre como as crianças eram, ao mesmo tempo, triste e bonitas, e como um grupo de rebeldes estava contra a presença dela ali, desde que ela salvou a vida de uma menina de 13 anos que eles tentaram matar. Quando eu cheguei na África, lá estava minha esposa, sorrindo para mim e me abraçando com tanto amor, “Estou tão feliz em te ver! Você nunca vai entender o quanto te amo!”. Eu percebi que ela estava pálida e havia perdido peso, ela disse que estava bem. Nós moramos lá por um ano e meio, e eu via que ela não estava bem, mas se forçando a parecer feliz, então eu não perguntava muito. E então ela morreu. Eu encontrei uma carta... Ela escreveu que tinha descoberto que sua doença era terminal, então ela escolheu se mudar para a África para salvar o máximo de pessoas que ela pudesse, assim sua vida não teria sido em vão, mas sim transmitida para muitas outras vidas, como se cada criança que ela salvasse tivesse um pedacinho dela. E assim ela fez. Agora eu continuo o trabalho que ela começou. Meu único e maior amor em todo o universo, Isadora.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Sobre os dois nós.

Era um dia de chuva, ele trabalhava e ela curtia a preguiça de férias em casa. Sentada sobre a mesa com um chocolate quente ela via a chuva cair e se tornava inevitável não pensar nele. Ela se sentia quase um filhote quando estavam juntos, grudando de todas as formas que encontrava só pra procurar carinho. Era estúpido, chegava a ser engraçado... Mas quem disse que o amor não é ridículo nunca soube amar. Ela pegou o bloquinho de anotações e ficou um tempo escrevendo pra ele... Pronto, colocou o papelzinho debaixo do travesseiro, só quando fosse dormir ele iria encontrar. O barulho da porta se abrindo fez com que ela corresse até a sala e saltasse em seu pescoço, o que foi retribuído com o sorriso mais doce que ela conhecia, um beijo e um longo abraço macio. Ela sabia, e sempre mostrava pra ele, que ele era um lindo poema enquanto todos os outros eram tolas narrações...
O bom de quando um escritor se apaixona por você é que ele te faz eterno, com toda sensibilidade, te faz eterno nos sentidos, eterno nos momentos, eterno nas palavras... Eterno.