Eu engraxo sapatos. Não me lembro ao certo como aprendi o
ofício, era só mais um menino de rua até encontrar uma caixa de engraxate.
Enquanto faço meu trabalho, ouço os grandes homens conversarem sobre suas
senhoras, seus trabalhos difíceis, seus papeis importantes, seus horários
confusos, e uma política complicada. Conheço todos os tipos de sapatos, do mais
elegante ao mais casual, mesmo sabendo que nunca colocarei algum deles nos meus
pés pretos de poeira da rua. Não sei ler ou escrever, mas não sou bobo. Sei o
que significa ser inteligente e ser culto. Eu fico calado enquanto os grandes
homens disputam na garganta quem fala mais alto e no estômago quem é mais
gordo. Eu fico calado mas eu escuto; escuto, conheço e sei de muitas coisas que
eles nem imaginam. Não tenha pena de mim ao passar pela praça e me ver descalço
encurvado aos pés dos senhores. Eu sou alguém na vida. Escreva sobre mim! Eu
engraxo sapatos.
"Comece pelo começo - respondeu o Rei, muito sério - E vá até o fim. Quando terminar, pare." (Alice no País das Maravilhas - Lewis Carroll)
sábado, 24 de maio de 2014
segunda-feira, 28 de abril de 2014
Sobre pulso.
“Somewhere
beyond the pain there’s me. And I won’t rest until the world knows the name
Isadore.”
Nós nos conhecemos no hospital, ela era médica e eu tinha quebrado a perna. Ela passou por mim carregando uma criança no colo até o carro onde sua mãe esperava, o beijou e, de repente, eu vi, de alguma forma, a mulher da minha vida ali. Eu precisava conhecer aquela garota. Então ela veio até mim, cuidou da minha perna e quando eu estava indo embora do hospital a convidei para sair. Ela aceitou. Nós jantamos juntos a semana toda, até que ela me deixasse beijá-la, o que fez meu mundo virar de cabeça para baixo. Nós engatamos um relacionamento e três anos depois ela se tornou minha linda esposa. Eu sempre sonhei em ser pai, então eu propus para ela que deveríamos tentar. Chorando, ela me disse que tinha tal doença que não a permitia ter filhos. Ela me pediu desculpas como se tivesse culpa. Eu estava triste, não posso negar, mas eu compreendi, e me machucava vê-la triste. Duas semanas depois, ela recebeu um convite para trabalhar voluntariamente na África, cuidando de crianças. Primeiro eu fiquei “Não, é claro que você não pode simplesmente ir embora!”, mas então nós conversamos e eu vi novamente quão bonito era o espírito da minha esposa quando ela me disse com todo o seu amor sobre as vidas que ela poderia salvar. Nós decidimos que mudaríamos os dois para a África, então. Ela foi um mês antes de mim porque eu tive que ficar para organizar nossas coisas. Durante esse tempo, ela me mandou cartas falando sobre como as crianças eram, ao mesmo tempo, triste e bonitas, e como um grupo de rebeldes estava contra a presença dela ali, desde que ela salvou a vida de uma menina de 13 anos que eles tentaram matar. Quando eu cheguei na África, lá estava minha esposa, sorrindo para mim e me abraçando com tanto amor, “Estou tão feliz em te ver! Você nunca vai entender o quanto te amo!”. Eu percebi que ela estava pálida e havia perdido peso, ela disse que estava bem. Nós moramos lá por um ano e meio, e eu via que ela não estava bem, mas se forçando a parecer feliz, então eu não perguntava muito. E então ela morreu. Eu encontrei uma carta... Ela escreveu que tinha descoberto que sua doença era terminal, então ela escolheu se mudar para a África para salvar o máximo de pessoas que ela pudesse, assim sua vida não teria sido em vão, mas sim transmitida para muitas outras vidas, como se cada criança que ela salvasse tivesse um pedacinho dela. E assim ela fez. Agora eu continuo o trabalho que ela começou. Meu único e maior amor em todo o universo, Isadora.
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
Sobre os dois nós.
Era um dia de chuva, ele trabalhava e ela curtia a preguiça
de férias em casa. Sentada sobre a mesa com um chocolate quente ela via a chuva
cair e se tornava inevitável não pensar nele. Ela se sentia quase um filhote
quando estavam juntos, grudando de todas as formas que encontrava só pra
procurar carinho. Era estúpido, chegava a ser engraçado... Mas quem disse que o
amor não é ridículo nunca soube amar. Ela pegou o bloquinho de anotações e
ficou um tempo escrevendo pra ele... Pronto, colocou o papelzinho debaixo do
travesseiro, só quando fosse dormir ele iria encontrar. O barulho da porta se
abrindo fez com que ela corresse até a sala e saltasse em seu pescoço, o que
foi retribuído com o sorriso mais doce que ela conhecia, um beijo e um
longo abraço macio. Ela sabia, e sempre mostrava pra ele, que ele era um lindo
poema enquanto todos os outros eram tolas narrações...
O bom de quando um escritor se apaixona por você é que ele
te faz eterno, com toda sensibilidade, te faz eterno nos sentidos, eterno nos
momentos, eterno nas palavras... Eterno.
sábado, 4 de janeiro de 2014
Sobre coisas que não dá pra falar.
Estava no meio da tarde quando R... teve seu sonho interrompido pelo entregador de cartas batendo à porta. Era uma caixinha que fazia barulho quando chacoalhada, não havia remetente somente seu nome lá em letras de forma como destinatário. Sentou-se no sofá onde dormia, tomou longos goles d'água, bocejou e abriu o pacote. Eram vários cartões postais, muitos mesmo, de vários lugares ao redor de todo o mundo. No verso de cada um havia passagens do tipo "Aqui nós iríamos montar uma casa e deixá-la.", "Aqui finalmente aprenderíamos a dançar tango.", "Aqui viríamos nadar escondidos nas cachoeiras"... Logo ele pensou, não pode ser, o que ela quer agora? No fundo da caixa, debaixo de todos os postais havia uma carta, extensa, ele notou. Levantou-se em direção à janela e começou a ler:
"Querido R..., ou, se ainda posso te chamar assim, 'meu menino'
Eu sei que eu desapareci de repente e agora reapareço em outro repente. Você não deve ter entendido, eu calculo... Você já não entendia há tempo... Era bom estar com você, sempre foi. Nós funcionávamos muito bem, nós dois. E é isso, nós dois. Engraçado, você lembra que demorou um dia pra notar que eu havia partido? Você estava fazendo não sei o quê com não sei quem não sei onde e nem notou, só no outro dia que foi sentir minha falta, mas aí eu já havia partido para o meu primeiro país-destino e você, não me surpreendi, nada fez. Já se passou dois anos, não sei o que foi feito da sua vida, você provavelmente não quer saber o que eu fiz da minha mas mesmo assim eu vou contar, e, como nos velhos tempos, você vai 'ouvir' e logo esquecer. Mas vamos lá, já tenho lápis, papel e um monte de letras...
Nós ficamos juntos por cinco anos. Cinco anos mágicos, eu posso dizer. Gente para falar que nós não iríamos durar era o que mais tinha, mas aí TAF, demos um tapa na cara da hipocrisia alheia. Desde o começo sabíamos que não éramos iguais e optamos por nos moldar um pelo outro, o que deu bem certo. Como deu! Conhecemos lugares incríveis, tivemos neles noites mais incríveis ainda, onde eram o céu, você e eu. E nós não precisávamos mesmo de mais nada... Mas não era da sua natureza criar amarras. Você precisava ser livre e eu precisava que você fosse feliz. E então eu vi que quem deveria partir era eu. Afinal, você precisava ser livre e eu precisava que você fosse feliz. Depois de noites seguidas dormindo envolvida no meu pranto e você vivendo como se estivesse tudo bem, meu cérebro doía. Eu nunca tive sentimentos maus por você a esse respeito, ao invés de te lançar raiva, eu me lançava mágoa. Foi então que eu percebi que eu amava o 'meu' R..., e não qualquer outro R... que você podia ser. Era quase um amor platônico. E então eu parti. Parti, mas não te deixei. Todo esse tempo eu tenho visitado os lugares que planejamos conhecer e em cada um deles lembro de você com todo o carinho que tenho, afinal, eu te amo. Eu sabia que de alguma forma esses postais chegariam até você, só não tinha decidido como. Não estou voltando e nem pretendo. Se quiser se encontrar comigo, você vai saber onde me achar. Minha peregrinação acabou. Vou me afixar nesse lugar que você está pensando agora, se já não tiver esquecido. Enfim, é isso R... Te deixei porque te amo, não te esqueci porque te amo. E te amo, te amo, te amo.
Da sempre sua,
L..."
"Querido R..., ou, se ainda posso te chamar assim, 'meu menino'
Eu sei que eu desapareci de repente e agora reapareço em outro repente. Você não deve ter entendido, eu calculo... Você já não entendia há tempo... Era bom estar com você, sempre foi. Nós funcionávamos muito bem, nós dois. E é isso, nós dois. Engraçado, você lembra que demorou um dia pra notar que eu havia partido? Você estava fazendo não sei o quê com não sei quem não sei onde e nem notou, só no outro dia que foi sentir minha falta, mas aí eu já havia partido para o meu primeiro país-destino e você, não me surpreendi, nada fez. Já se passou dois anos, não sei o que foi feito da sua vida, você provavelmente não quer saber o que eu fiz da minha mas mesmo assim eu vou contar, e, como nos velhos tempos, você vai 'ouvir' e logo esquecer. Mas vamos lá, já tenho lápis, papel e um monte de letras...
Nós ficamos juntos por cinco anos. Cinco anos mágicos, eu posso dizer. Gente para falar que nós não iríamos durar era o que mais tinha, mas aí TAF, demos um tapa na cara da hipocrisia alheia. Desde o começo sabíamos que não éramos iguais e optamos por nos moldar um pelo outro, o que deu bem certo. Como deu! Conhecemos lugares incríveis, tivemos neles noites mais incríveis ainda, onde eram o céu, você e eu. E nós não precisávamos mesmo de mais nada... Mas não era da sua natureza criar amarras. Você precisava ser livre e eu precisava que você fosse feliz. E então eu vi que quem deveria partir era eu. Afinal, você precisava ser livre e eu precisava que você fosse feliz. Depois de noites seguidas dormindo envolvida no meu pranto e você vivendo como se estivesse tudo bem, meu cérebro doía. Eu nunca tive sentimentos maus por você a esse respeito, ao invés de te lançar raiva, eu me lançava mágoa. Foi então que eu percebi que eu amava o 'meu' R..., e não qualquer outro R... que você podia ser. Era quase um amor platônico. E então eu parti. Parti, mas não te deixei. Todo esse tempo eu tenho visitado os lugares que planejamos conhecer e em cada um deles lembro de você com todo o carinho que tenho, afinal, eu te amo. Eu sabia que de alguma forma esses postais chegariam até você, só não tinha decidido como. Não estou voltando e nem pretendo. Se quiser se encontrar comigo, você vai saber onde me achar. Minha peregrinação acabou. Vou me afixar nesse lugar que você está pensando agora, se já não tiver esquecido. Enfim, é isso R... Te deixei porque te amo, não te esqueci porque te amo. E te amo, te amo, te amo.
Da sempre sua,
L..."
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
Sobre contagem de dias.
Era 1920 e o casal estava sentado à uma mesa de uma simpática cafeteria
holandesa. Dividiam-se entre carícias e chocolate quente quando a
irmãzinha do rapaz chegou correndo com um envelope nas mãos e
entregou-lhe. Ele abriu o envelope e leu a carta. Olhou para a namorada à
sua frente com olhar cauteloso, levantou-se, ajoelhou-se em frente a
ela, abraçou-lhe e beijou-lhe com certa urgência. Entregou a ela a carta
para que lesse. Ele estava sendo convocado para servir às forças
armadas holandesas por um ano na iminete guerra. Tinha uma semana para
apresentar-se. Durante essa semana ela ficou pensando como se fazer
lembrar para ele mesmo em meio à guerra. No último momento antes do
embarque, ela entregou-lhe uma pequena caixinha de madeira e disse-lhe
que abrisse somente no seu primeiro dia de ações militares. Assim ele
fez. Ao abrir a caxinha estava escrito "Leia apenas um por dia." Haviam
365 bilhetinhos, um para cada dia do ano que ele passaria fora, com
lembretes do quanto ela o amava e esperava por sua volta. O ano passou e
ele retornou. Ao vê-la, devolveu-lhe a caixinha e a disse que abrisse.
Nela havia agora, um anel e outros 365 bilhetinhos. Ele ajoelhou-se,
pediu-a em casamento. Eles viriam a se casar há exatamente um ano dali, e
ela leria um dos 365 bilhetinhos por dia até a data do casamento,
lembrando-se diariamente do amor que nutria por ela o homem com quem se
casaria. E assim foi...
domingo, 18 de agosto de 2013
Sobre poeminhas.
Não sou bom em nada.
Música só sei ouvir,
poesia só sei ler,
filosofia nem sei discutir,
quadro só sei ver,
história só sei ouvir...
Mas e amar?
Ah, sei sim! Mas só sei amar você!
quinta-feira, 15 de agosto de 2013
Sobre sono.
Tô numa insônia danada e só consigo pensar em você. E aí me
vem inspiração e eu me pergunto: por que ela não te traz de companhia? Que é
pra chegar invadindo a paz do meu quarto e o desassossego do meu coração. Que é
pra causar reboliço na minha paixão e me acalentar no seu calor. Quero traçar
com minhas mãos toda a extensão do seu rosto enquanto você deixa que minha boca
reconheça a sua... Mas não te ligo, não quero te acordar. Se eu vou até a
janela, o céu é tão escuro quanto seus cabelos e as estrelas cadentes ainda não
sabem teletransportar. Se ligo o som é
aquela musiquinha gostosa que está tocando, aquela que te faz se enroscar todo
em mim e dormir como se nada mais existisse a não ser o bater dentro do meu
peito. Não vou nem tentar escrever... Palavras apenas, não. Fui tomada! Desligo
o som, faço o som. O violão se facilita até mim e é irrecusável. O tempo passa,
olho pro relógio que marca 4 horas. Volto a me deitar. Ainda precisando de
você... Até amanhã, meu amor.
Assinar:
Postagens (Atom)






