"Comece pelo começo - respondeu o Rei, muito sério - E vá até o fim. Quando terminar, pare." (Alice no País das Maravilhas - Lewis Carroll)

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Sobre verdades e amores.



Melhor lido ao som de: http://www.kboing.com.br/lana-del-rey/1-1101573/


My old man is a bad man
But I can't deny the way he holds my hand
And he grabs me, he has me by my heart

                Ela é uma perfeita mulher a la década de 50. Ele, um gangster famoso por nunca ter sido pego pela polícia.

He doesn't mind I have a Las Vegas past
He doesn't mind I have a L.A. crass way about me
He loves me with every beat of his cocaine heart

                Ela pronuncia essas palavras apoiada na beirada da piscina enquanto observa seu homem deitado ao sol.

Swimming pool glimmering, darling
White bikini off with my red nail polish
Watch me in the swimming pool
Bright blue ripples, you
Sitting sipping on your black cristal, yeah

                Ela sai da piscina e vai andando em sua direção. Deita ao lado dele na cadeira e pega sua bebida.

Light of my life, fire in my loins
Be a good baby, do what I want
Light of my life, fire in my loins
Gimme them gold coins, gimme them coins

                Ela o beija, divide com ele o cigarro e se recosta em seu peito.

And I'm off to the races
Cases of Bacardi chasers
Chasin' me all over town
Cause he knows I'm wasted
Facing time again on Rikers Island
And I won't get out
Because I'm crazy, baby
I need you to come here and save me
I'm your little Scarlet, starlet
Singing in the garden
Kiss me on my open mouth
Ready for you

                Ele a beija e desliza sua mão pelo corpo da mulher.

- x -

My old man is a tough man
But he got a soul as sweet as blood red jam
And he shows me, he knows me
Every inch of my tar black soul

                Ela está enrolada nos lençóis ao lado dele na cama o olhando dormir.

He doesn't mind I have a flat broke down life
In fact he says he thinks it's what he might like about me
Admires me, the way I roll like a rolling stone

                Ela o acaricia.

Likes to watch me in the glass room
Bathroom, Chateau Marmont
Slipping on my red dress, putting on my make up
Glass room, perfume, cognac, lilac fumes
Says it feels like heaven to him

                Ela está se arrumando numa penteadeira enquanto ele a observa na porta do aposento. Eles se encaram pelo espelho.

Light of his life, fire of his loins
Keep me forever, tell me you own me
Light of your life, fire of your loins
Tell me you want me, gimme them coins

                Ela levanta e vai de encontro a ele até a porta. Chegando, para. Ele alisa seus cabelos acompanhando o contorno de seu rosto e segura seu queixo.

And I'm off to the races
Cases of Bacardi chasers
Chasin' me all over town
Cause he knows I'm wasted
Facing time again on Rikers Island
And I won't get out

                Eles descem uma grande escadaria que dá no salão de festas da mansão onde vivem.

Because I'm crazy, baby
I need you to come here and save me
I'm your little Scarlet, starlet
Singing in the garden
Kiss me on my open mouth

                Ela sopra os dados para lhe dar sorte.

Yeah, I'm off to the races, laces
Leather on my waist is tight
And I am falling down
I can see your face is shameless
Cipriani's basement
Love you but I'm going down

                Ele é um excelente jogador.

God I'm so crazy baby
I'm sorry that I'm misbehaving
I'm your little Harlot, starlet
Queen of Coney Island
Raising hell all over town
Sorry 'bout it

                Eles dançam juntos, colados um ao outro. Ele se afasta, beija sua mão olhando eu seus olhos, e a deixa. Vai andando para a porta do salão. Ela sabe o que ele vai fazer agora.

My old man is a thief
And I'm gonna stay and pray with him 'till the end
               
                Ela tem um copo de champanhe na mão e vai andando lentamente em direção à porta por onde ele passou, observando-o ir. Pronuncia cada palavra num sussurro.

But I trust in the decision of the Lord to watch over us
Take him when he may, if he may
I'm not afraid to say that I'd die without him

                Ela abaixa o braço fazendo com que o champanhe derrame no chão.

Who else is gonna put up with me this way?
I need you, I breathe you, I'd never leave you
They would rue the day I was alone without you

                A taça cai. Quebra-se.
-x-

You're lyin' with your gold chain on
Cigar hanging from your lips

                Ela atravessa a sala em direção à poltrona onde ele está deitado. Ele fuma um cigarro, tem um copo de uísque na mão e uma atadura no peito. Ela diz:

I said
"Hun, you never looked so beautiful
As you do now, my man"

                Eles estão na rodovia, ele dirige, ela tem seus cabelos dançando pelo vento.

And we're off to the races, places
Ready, set the gate is down
And now we're going in
To Las Vegas, chaos
Casino oasis
Honey it's time to spin
               
                Ele tem uma mão no volante e a outra na perna dela.

Boy you're so crazy baby
I love you forever, not maybe

                Ela acaricia o cabelo dele enquanto diz:

You are my one true love
You are my one true love

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Sobre a sua preferência.


Eu sou a Augusta. Diagnosticada com transtorno bipolar com tendência ao autismo desde que posso me recordar. Minha cabeça não é o caos, minha vida é. E o mundo. Por isso resolvi me fechar a ele. Há algo de errado com as pessoas que eu ainda não descobri o que é. O contato máximo que me permito ter com elas é através de um vidro, seja ele o de uma janela, uma porta, ou uma televisão. Especialmente o último. Contrariando todas as expectativas para uma pessoa como eu, amo cinema. Me entrego aos filmes, histórias, lugares e personagens; porque eu sei que estão protegidos por uma camada de filme, outra de plástico e um vidro espesso. E eu, pelos mesmo meios, protegida deles. Só há uma pessoa que eu não quero barrar, ele. Ele é o meu paraíso pelo simples motivo de me desligar. Quando ele chega olhando nos meus olhos e sorrindo, o mundo para de zunir lá fora. Basta eu me lembrar que é um olhar de pena entre médico e paciente para que aquela parte de mim comece a gritar. Por quê? Será que ele pensa que eu sou doente?! É assim então que ele me vê?! Ele está errado. O mundo é que é doente! E então ele me desliga mais uma vez, mas dessa vez de verdade. Um efeito que dura algumas horas... Depois o mundo volta a zunir, e minha cabeça tenta reorganizar o caos. De novo, tudo igual. Até onde se possa dizer, normal. Voltamos a ser o silêncio, os filmes e eu. Hoje pela manhã fui até a janela. Lá na rua estavam o Doutor Coitadinha-da-minha-paciente com uma mulher. Eles estavam felizes, como os casais protegidos pela televisão. Eu toquei o vidro da janela, agora sim eu queria quebrar toda proteção que me separava dele, naquele momento me dei conta da tamanha dependência que eu criara para com ele. Foi quando vi meu reflexo no vidro. Me assustei sinceramente! Olhava para mim e via meus ossos, meus olhos saltavam do meu rosto magro! Marilyn, a eterna senhorita Monroe, uma vez disse que se fosse para alguém ser duas caras, que fizesse ao menos uma delas bonita. Me desculpa, não consegui. Nenhuma delas. Em mim uma face gritava de dor e a outra desorbitava em desespero. O que eu fiz de mim? O que eu fiz de nós? O que o mundo causou? Eu chorei. Simplesmente. Me cedi ao chão frio e chorei...

sábado, 8 de setembro de 2012

 












 Quando ele te disser que você tem olhos de cigana oblíqua e dissimulada, acredite, pode amá-lo. Ele encontrou na escuridão dos seus olhos todo o mistério que o amor traz e não, não quer entendê-los. Mas sim deliciar-se neles, aproveitar-se deles, abandonar-se neles. Como num mar de ressaca... Olhos de ressaca. Ele já sabe das várias facetas que você pode ter e quer explorá-las. Seja dele, Capitu.

“Capitu era Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem.”

sábado, 14 de julho de 2012

Sobre inspiração.

- What should we dance?
- It ain't about the rythm - he said
- Then what is it about? - she asked
- It's all about... passion. And touch, and skin, and freedom... And above all, desire. Everything you hold inside.

domingo, 8 de julho de 2012

Sobre o átrio direito.

Intenso. Tudo. Quente ou frio, mas não morno. Porque o que é morno não queima, e o que não queima não marca. E o que não é frio não causa arrepios. Na pele. À flor da pele. Expôr superficialmente o que é profundo. Profundo tanto, que escuro. No escuro, porque tudo que é diferente torna-se igual aos olhos do cego. Os olhos. Deixem-se beijar sozinhos, os olhos. E se afundarem, e se trombarem, e se devorarem, e se perderem, e se entorpecerem. Entorpecendo-se, deixam o corpo em estado dopado. Leve, ao balanço do nada, ao balanço do tudo. Ao meu balanço. Deixando levar como a água. Lavando a alma como a espuma do mar. A maré. Amar é... Renovar nostalgias. Viver as surpresas transformando-as em saudades. Muitas. Tantas que ficam inteiras. As metades, ficam. Não sabe ser metade quem sente por inteiro. Nem precisa. Mas precisar, não. Não? Até porque, 'por que não?' é sempre sim. E sim é inteiro. Da cabeça aos pés. Pés que não estão atrás porque sabem pular a pedra, recuperar o passo do tropeço e virar pro lado o caminho. Caminho, ca. Caminho, inho. Vem cá. Vem cá pro nosso ninho. Novinho, ele. Quentinho. Só esperando você chegar. Pra saber como foi o dia, pra rir de novo das velhas manias, pra acordar, pra enlouquecer, pra acalentar, pra se entender. E viajar... Pra perto, pra longe, pra qualquer lugar. Ar, ah. Deixa pra lá, deixa que falte o ar. Ah, deixa faltar. Deixa faltar o peso, deixa faltar o que de mim te toma, porque agora a soma é só você + eu. E deixa ser assim. Assim, sim, silêncio. Nada. Que o nada vira tudo, meu bem. E tudo é como deve ser. Intenso.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Sobre o nada.

Essa era a última cena do filme:
Ela andou pelo pátio lateral da escola já acabada e desceu as escadas que restavam. Eram três lances. Tortos. Do final, ela via duas quadras com poças da chuva que agora já diminuíra. Fez-se um close em seu rosto e ela respirou fundo. Virou e começou a subir as escadas. A imagem que tínhamos agora era das suas costas, subindo os degraus vagarosamente, a escola surgindo aos poucos no começo da escada, pra onde ela ia. Ao chegar ao último degrau, ela parou. Todos os antigos estudantes da turma da primeira série da escola estavam lá, encostados na parede, sérios. Alguns até com expressão de raiva, poderia se dizer. A turma de 50 anos atrás, a turma de quando a escola incendiou. Toda lá. Ela olhou fixamente nos olhos de cada um, de cada ex aluno seu. Eles responderam o olhar. Ela se virou e atravessou novamente o pátio. 30 crianças mortas atrás dela.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Sobre ironia.

Ela estava sentada com alguns amigos quando cheguei e me acomodei na cadeira vaga ao seu lado. Pouco tempo depois de eu chegar, o garçom veio com um drink e a entregou dizendo que o homem da outra mesa tinha mandado pra ela. Eu perguntei se ela estava interessada e ela respondeu que não com um tom na voz indicando que a resposta era óbvia. 'Então tá.' Passei o braço por seu ombro, segurei seu rosto e a beijei. Depois, com um  sorriso torto levantei o copo que ela ganhou em direção ao homem que o mandara.A noite foi super agradável. Quando estávamos indo embora, brinquei falando que ela me devia uma. Com um riso no rosto ela disse: 'Acho que ele ainda está olhando pra cá.' e me beijou.