"Comece pelo começo - respondeu o Rei, muito sério - E vá até o fim. Quando terminar, pare." (Alice no País das Maravilhas - Lewis Carroll)

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Sobre o cinema.

- Sabe, eu cheguei ao ponto de querer ser louca. Louca mesmo, louca de hospício. Assim eu poderia viver num mundo onde tudo seria perfeito. Onde eu gostasse da realidade, onde eu vivesse meus sonhos.
- Mas isso não seria real.
- Pra mim seria. Seria o meu mundo real que você chamaria de paralelo. Mas eu estaria louca então ninguém me convenceria de que ele não é real.
- Do que nós estamos falando?
- De sonhos.
- Pois então corra atrás do seu!
- Não posso... Eu precisaria ser uma em um milhão para realizá-lo e já vi que não sou. É difícil ter que conviver com a ideia de se contentar com segundas, terceiras ou milésimas opções. Muitas vezes eles falam pra correr atrás, mas esquecem de te avisar que você é só um bebê que engatinha ou que nem ao menos tem pernas.
- Não pense assim... Corra atrás! Você não vai saber se não tentar.
- Eu vou tentar. Mas a cada vez que eu falhar, quero que uma fagulha de loucura nasça em mim. Assim, só assim eu tenho certeza de que serei feliz. Porque no fim eu terei conquistado meu sonho, seja na sua realidade ou na minha loucura.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Sobre o grito mudo.

Estou tão cansada de estar aqui reprimida por todos os meus medos infantis. E se você tiver que ir eu desejo que vá logo, porque sua presença ainda permanece aqui e não vai me deixar sozinha. Você costumava me cativar com a sua luz ressonante, agora sou limitada pela vida que você deixou para trás. Seu rosto assombra todos os meus sonhos que já foram agradáveis. Sua voz expulsou toda a sanidade em mim. Essas feridas parecem não cicatrizar, essa dor é tão real! Há tantas coisas que o tempo não pode apagar... Quando você chorou eu enxuguei todas as suas lágrimas, quando você gritou eu lutei contra todos os seus medos, e eu segurei sua mão por todos estes anos, mas você ainda tem tudo de mim. Eu tentei tanto dizer à mim mesma que você se foi e embora você ainda esteja comigo, eu tenho estado sozinha por todo esse tempo.
 My Immortal - Evanescence

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Sobre a madrugada.

 Só mais um último copo de absinto e eu estou indo. Mesmo! Devia ter pegado o outro casaco que estava na cadeira, que frio é esse?! Brrrr! 
- A madrugada é sempre fria por aqui.
Eu sei, eu sei. Não render. As mulheres desse lugar se chamam problema e só querem meu dinheiro. Mas esses olhos contariam uma bela história pra mim. Frio, 'a madrugada é fria aqui'.
- E as pessoas sempre quentes, não é? As bebidas geladas e os pianos fervendo... E o jazz.
Ela está rindo de mim. Eu não bebi tanto pra ficar tonto.
- Você não tem a cara desse lugar.
- É, não. Eu sou um escritor... Digamos que vim buscar alguma inspiração.
- Falta de atenção foi o que ela alegou, não é?
- Então você é uma adivinha, hum.
Adorei sua risada. E o cheiro de uísque que saía da sua boca, huum, que cheiro!
- Eu posso ser o que você quiser.
- Qual o seu preço?
- Hahaha! Não, você não é esse tipo de cara.
- Eu disse que preciso de uma história?
- Não, não disse.
- Então. Preciso de uma história. qual o seu preço?
- Vou precisar ler essa tal história primeiro, depois te dou um preço.
Couro, as luvas que me puxaram para dentro de um prédio eram de couro. Tropecei em alguns degraus, obviamente porque estava escuro demais, as luzes eram muito fracas. E ela ria cada vez que eu caia. Quando o couro não me puxava pra cima, eu me segurava na rede de suas pernas. Devo ter rasgado sua meia, não me lembro. Quando entramos no quarto rapidamente abri a janela, precisava de ar. Que lua linda era aquela! Ela me abraçou pelas costas e agora estava quente. Trazia um copo pra mim com um líquido verde. Ah, minha querida fada verde! Eu ri sozinho dos meus pensamentos absurdos... Comecei a considerar que estivesse um pouco bêbado. Só um pouco. Tirei meu caderno e um lápis do bolso do casaco e coloquei sobre a mesinha. Ela tirou meu casaco e o pendurou. Enquanto eu ainda estava olhando pela janela, ela passou os braços ao meu redor e me sentou na cadeira. Abri o caderno, ela abriu o colete. Conferi a ponta do lápis, ela desabotoou a liga. Começei a escrever, ela lançou a meia. 
- Preciso de um nome pra minha personagem.
- Augusta.
Seus olhos ardiam no fundo dos meus. Primeiro: apresentar o personagem. A primeira linha estava escrita, o primeiro botão aberto. Segundo: apresentar o lugar. A minha cabeça girava um pouco, ela se virava e descia para tirar os sapatos de salto. Terceiro: criar a situação. Joguei um gole na boca pra ajudar a pensar, ela jogou o sutiã no chão. Seus peitos estavam... Risca peitos. Seios. Seus seios estavam expostos à luz da lua. Eu me engasguei, ela sorriu. 
- Como vai indo a história?
Era um chamado, tinha que ser. E mesmo se não fosse, eu fui. Me levantei e a beijei. Sua pele era doce e a cama era macia. Mas seus dentes, esses sim eram afiados! Ela era incrível!

- Mais um, amigo?
Acordei assustado com alguém me cutucando. Era o dono do bar. Como foi que eu voltei pra cá e dormi no balcão?
- Não, não.
Olhei em volta mas ela não estava lá. Eu não sonhei, né? Procurei no bolso pelo meu caderno e o lápis. Tinha uma história escrita. Passei a mão pelo outro bolso e tinha um lenço com uma marca de beijo. Saí do bar, procurando-a pelas ruas.
- A madrugada é sempre fria por aqui.
Era aquele voz com cheiro de uísque, eram aqueles olhos em chamas.
- Augusta!
- Como você sabe meu nome? Nunca te vi por aqui...
- Bom, eu...

domingo, 25 de dezembro de 2011

Sobre temperatura.



A noite era fria, mas meu corpo continuava quente.
As memórias eram duras, mas meus passos eram suaves.
O vento era grosseiro, mas a embriaguês era delicada.
Desde você, os únicos gostos que guardo na boca são de lágrimas, vodka, remédio e cigarro.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Sobre a sabedoria da velhinha da casa ao lado.

Dizem que ela era uma mocinha muito bonita a Flor de Liz. Só que ela era muito caladinha, sabe? Até falava quando precisava, mas só assim. Quando via alguém gritando ficava assustada, tinha que ver! Lia e desenhava que fazia gosto! Teve um dia que a menina Flor de Liz ficou tão nervosa que resolveu que queria passar o resto da vida sozinha e foi se isolar longe de todo mundo. Passou um tempo, a coitadinha chorou até desidratar, olha que dó! Dizem, sabe, que esse lago alí ó, tá vendo? Pois é, dizem que esse lago ali é feito das lágrimas dela, e que ela fica lá no fundo até hoje. Eu mesma uma vez quando era menina fui mergulhar aqui na lagoa e vi ela lá, no cantinho. Ela sorriu pra mim, a Flor de Liz.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Sobre o arame farpado.





Malícia deveria ter sido menino.
Nasceu.
Menina, mas nasceu.

Malícia gostava mais do lápis da coleguinha que dos seus.
Pediu emprestado.
Não coloriu, mas quebrou.

Malícia não gostava de seus cabelos.
Ganhou uma boneca.
Não penteou-lhe, mas arrancou-lhe a cabeça.

Malícia se achava feia.
Podia ser sexy.
Não se escondeu, mas esnobou.

Malícia não gostava de ninguém, Luana gostava de Henrique.
Bebeu todas.
Beijou o garoto errado, mas beijou.

Malícia ficou sozinha.
Viu Gustavo passar.
Não só olhou, mas se jogou.

Malícia teve filhos bonitos.
Viu um avião.
Não queria ficar, mas voar.

Malícia escreveu um bilhete.
Era meia noite.
Certo ou errado, mas escolheu.

Malícia saiu pra vida aos 28.
Libertinagem.
Não abraçou, mas amou o destino.

sábado, 1 de outubro de 2011

Sobre pedidos.

- Alô? Alô! Quem é? Alô?!
E o telefone desligava. Era isso há três semanas.


-Eu amo você, Eduardo.
- Eu te amo, Bianca.
Eles estavam no quarto de Bianca, escondidos. Eduardo morava no andar de cima e pra ele era fácil pular para a sacada do andar de baixo. Os pais não podiam nem sonhar que isso acontecia, de nenhum dos dois. Eles eram inflexivelmente contra aquela "paixãozinha estúpida que nunca daria em nada". Mas eles não se importavam. Estavam na sacada do quarto de Bia, ela sentada e ele de pé em frente a ela. Era quase uma da madrugada e Eduardo tinha que voltar.
- Quero meu beijo de despedida.
E o beijo se estendia.
- Bianca! - seu pai aparecera em seu quarto. No susto com o grito do pai, Bianca caiu da sacada. Um vôo do terceiro andar ao asfalto.
- Bia! - Eduardo se desesperou e passou correndo pelo pai de Biana que estava estático na porta, onde gritara a filha. Eduardo desceu as escadas correndo e encontrou Bia desacordada na rua,
- Socorro! Por favor, chamem uma ambulância! Bia, Bia, meu amor! Eu não vou deixar você, por favor, não me deixe!


"Era tudo perfeito. Lembrou-se da primeira noite que passaram juntos e começou a viver a partir daí. Estavam numa casa em frente a um lago. Moravam lá, os dois. Eram felizes. Ah, Eduardo..."


- Não é verdade! Isso não aconteceu! Eu sinto, não pode ser. Eu a pedi que não me deixasse. - Eduardo reagiu a soluços ao que o pai de Bia lhe dizia.
- Sim, Eduardo. Infelizmente minha filha está morta.
Eduardo foi para casa arrasado, sem saber o que fazer. Mais uma vez, desespero. 
O pai estava realmente mentindo. Para Bianca foram três longos meses em coma. Para Eduardo, uma eternidade de dor. Seu quarto se transformou num santuário para Bia. Desenhos e fotos dela espalhados por toda parte em meio a uma imensa bagunça. A desordem do quarto nada mais era que um retrato fiel da desordem da cabeça daquele garoto. Há três meses ele não fazia nada a não ser lembrar Bianca. Quase não comia, não saia do quarto. Chamava por Bia a todo momento, escorria-se nas paredes. Diziam que tinha enlouquecido e os pais até consideraram interná-lo. Estava na janela do quarto perdido no nada quando a viu passar. Era ela, só podia ser! Ele sabia que ela não estava morta. E ele não estava louco. A garota entrou num taxi e foi embora.
O pai de Bianca havia se mudado Eduardo não sabia pra onde. Pegou a lista telefônica e procurou pelo nome Neron Toresco.
3275-8896
- Eu vou te encontrar, Bia. Meu amor...
Ligou na manhã seguinte. Uma linda voz atendeu.
- Alô?
Era ela. Ele nunca se esqueceria daquela voz. O que dizer?
- Alô? Se isso for algum tipo de brincadeira...
Desligou. Ela não lembrava dele. Eduardo acabara de entender que Neron estava mentindo todo esse tempo. Por quê? O que teria acontecido com Bia? Ele não podia arriscar falar por telefone. Resolveu encontrá-la. Mas não imediatamente. Ele estava horrível. O peso da dor, o reflexo no corpo. Ligou algumas vezes mais e por fim mandou uma carta.

" Só preciso ter certeza de que era mentira. Precisava saber que você estava viva. Obrigado pela sua voz..."

Que bilhete estranho era aquele? Provavelmente era da pessoa que ligava, mas quem poderia ser? Bianca resolveu sair. Eduardo, que estava na rua esperando, a seguiu. Ela se sentou num banco um uma praça que ficava sempre vazia. Eduardo a ficou observando por um tempo... Andou e parou de pé atrás dela, sem que ela o pudesse ver. Encostou em seu ombro e estendeu-lhe uma flor. Bia levantou-se e olhou fundo nos olhos daquele rapaz.
- Eduardo!
Ela se lembrava.