"Comece pelo começo - respondeu o Rei, muito sério - E vá até o fim. Quando terminar, pare." (Alice no País das Maravilhas - Lewis Carroll)

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Sobre ocultar.

Ela estava ansiosa. Aquelas horas não passavam. Precisava ouvir a voz dele, precisava de uma resposta. Ela não tinha mentido. Mais cedo ele recebeu uma mensagem no celular: "I smell sex and candy here. Rua 7, Monvelich". Chegando no endereço indicado lá estava a garota. Nua, na cama com outro rapaz. Ela ligou para ele e ouviu coisas horríveis. Mandou várias mensagens perguntando porque tudo aquilo.
- Filha, precisamos conversar.
- Agora não, mãe.
- Você é adotada.
- O quê?!
- E gêmea. Pelo que me consta, seu namorado também precisa saber.

Sobre rotina.

Ele acordou, espreguiçou, levantou, urinou, comeu, bebeu, escovou, vestiu, calçou, olhou, abriu, saiu, fechou, trancou, dirigiu, chegou, cumprimentou, riu, trabalhou, odiou, esqueceu, voltou, comeu, banhou, arrumou, ouviu, dançou, ensaiou, encontrou, bebeu, fumou, viu, beijou, sentiu, saiu, transou, acordou, olhou, tomou, andou, distraiu, esqueceu, assustou, morreu.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Sobre frações.

Aos meus 18 anos estudava na mesma escola que G. Ele sempre chamou muito minha atenção (até demais), mas eu não tive tempo (?) ou oportunidade (?) para entender se eu cheguei a realmente sentir alguma coisa por ele. Afinal, com a gente estudava também P, meu então namorado. Como eu e G não estávamos na mesma sala e eu era tímida demais, não me lembro de termos trocado qualquer palavra. Só mesmo olhares quando passávamos um perto do outro e aquele frio no estômago quando isso acontecia. Ah, como éramos imaturos! Mas enfim... Outro motivo que talvez não tenha me deixado esclarecer as coisas em relação a G é que ele namorava L, da minha sala. P sempre foi um pouco ausente, mas era o jeito dele, nem me incomodava mais. Costume. Cheguei a pensar que essa minha confusão em relação a G pudesse até ser uma forma de suprir essa ausência. Mas o ano acabou sem que eu descobrisse. Nosso último ano escolar. Não soube mais dele, pra onde foi, que faculdade resolveu fazer, se continuou com L... Eu me casei com P. Ele sempre me fez muito feliz. Continuava com aquele seu jeito ausente, mas quando estava comigo, em presença de corpo e alma, me fazia bem. Feliz. A solidão as vezes se acumulava e então eu procurava algo com o que me distrair. Hoje mexendo em caixas antigas, encontrei um papelzinho com o desenho de um coração dividido em quatro partes. Três delas estavam coloridas em vermelho e tinham uma letra P. A parte restante se encontrava branca e tinha um G. Logo abaixo a frase "Você nem sabe que 1/4 é seu. Na verdade nem eu sei..." Ri de mim mesma. Coloquei o papelzinho na bolsa e saí. Talvez eu devesse mencionar que acredito em destino. Andando distraída pela loja de CDs, vi G. Anos se passaram, claro. Mas era impossível não me lembrar daquele rosto que não mudara quase nada (ainda tão lindo!). Para minha surpresa (grande surpresa!), ele me reconheceu e veio em minha direção (Porque eu sem perceber tinha simplesmente travado quando o vi). Sorríamos, mas não sabíamos o que dizer. Só se comunicavam nossos olhos meio assustados meio melancólicos meio apaixonados. Foi então que lembrei do papelzinho na minha bolsa e o entreguei. E agora essa sou eu, contando e explicando para G... Lembrando e ao mesmo tempo (e finalmente!) tentando entender o que foi aquilo. Ou ainda é...

Sobre o vôo.

"Olá, gato. Precisamos conversar." Rasguei o papel. O que eu escreveria depois? "Preciso de ajuda para fugir e agora vou viver com você." Ridículo. Ridículo mesmo é eu ainda estar estudando nesse internato comandado por freiras. Isso nunca foi pra mim. Aliás, nada nunca foi pra mim, por isso meus pais me mandaram pra cá e continuaram suas vidas em Dubai. Eles nunca quiseram filhos, eu fui um puta erro na vida deles. Mas agora quem não se importa mais sou eu. Depois da noite de ontem, nada mais me prende aqui. Eu e Marcos sempre tivemos muita atração um pelo outro. Sempre que ele vinha trazer as encomendas das freiras no internato a gente dava um jeito de se pegar sem que ninguém notasse. Mas sempre ele não podia demorar e ia embora. Ontem não. Ontem eu consegui levá-lo para o meu quarto. Aí sim! Ainda me arrepio só de lembrar da sua voz sussurrando aquelas palavras no meu ouvido. Era o impulso que me faltava para sumir daquele lugar. Amanhã quando ele voltar eu fujo com ele, está decidido. Finalmente conhecerei a liberdade e ainda poderei andar de mãos dadas com a sua irmã... Libertinagem.

sábado, 26 de março de 2011

Sobre um desabafo pessoal - Continuação VII

O tempo parece passar mais rápido quando todas as noites são sempre iguais, sempre escuras. E lá estava Davi, de terno, suando, tremendo dos pés à cabeça na porta da igreja. Era o dia do casamento daquele jovem de 27 anos.
- Segura esse homem antes que ele saia correndo e gritando feito um louco! - era Bruno, o melhor amigo de Davi.
- Cara, me segura mesmo! - e eles riam.
- Mas eu vim mesmo pra te chamar pra entrar porque o casamento vai começar e nós precisamos do noivo no lugar certo.
- Mas Elisa...
- É claro que você não vai ver Elisa antes do casamento, noivo desesperado! Vai pra lá, cara. Rápido, ou sua mãe surta!
- Ai, Deus!
Um carro parou em frente a igreja. Era Elisa. Elisa era linda. Seus traços pareciam ter saído de uma pintura. Ela tinha cabelos negros, olhos castanhos brilhantes e boca de coração.
Uma linda música tomou conta do lugar. Elisa entrava na igreja e seus olhos encontravam os de Davi e se entendiam. Eles se bastavam. O casamento, tão cuidadosamente planejado, foi perfeito. Na festa, os recém casados dançavam juntos.
- Ainda não consigo acreditar que você é minha... - Davi ainda trazia dentro de si aquele menino doce.
Depois de Elisa, Davi voltou a sonhar. Há muito ele não sabia o que era acordar pensando num sonho que durou toda a última noite e tentar decifrar os caminhos que sua mente havia percorrido. Desde aquele tombo na escada que seus pais tinham lhe contado mas que ele não se lembrava. A princípio Davi sonhava com Elisa, com seus pais e seus amigos, com pessoas conhecidas. Eram sonhos perfeitamente normais. Eram.
Certa noite, Davi sonhou com um lugar: uma ponte que passava sobre um lago e chegava a uma casinha muito simpática. Davi atravessava a ponte e batia na porta. Quando ela começava a se abrir, Davi acordava. Esse sonho se repetia por dias seguidos e sempre terminava do mesmo jeito. Terminava sem fim.
- Bom dia, meu amor! Ou devo te chamar de papai?
- Papai?! - Davi acabava de chegar à cozinha para tomar seu café e encontrou Elisa já de pé e com alguns papeis na mão.
- Sim, papai. É como você vai ser sempre chamado por alguém que daqui a pouco vai chegar. - Elisa entregou-lhe os papeis.
Ela estava grávida, Davi seria pai. Eles não podiam estar mais felizes! Naquele mesmo dia Davi foi a uma loja de brinquedos para comprar o primeiro presente do bebê. Na porta da loja havia um senhor fantasiado de palhaço distribuindo balões para as crianças. Davi sentiu-se arrepiar quando viu aquele homem. Ele simplesmente parara no meio da calçada sem conseguir se mover nem tirar os olhos do outro lado da rua. "Um palhaço triste..." - era uma voz feminina, doce, que Davi ouviu dentro de sua cabeça. Num flash Davi viu a imagem de um palhaço com sua maquiagem já toda borrada sentado numa poltrona. Uma lágrima descia por seu rosto. Foram segundos. Davi saiu correndo.
No trabalho não parou de pensar um minuto no que tinha acontecido. Desde quando esse medo de palhaços?
Algumas semanas se passaram até que Davi resolvesse ir em outra loja de brinquedos. Comprou uma bicicleta em miniatura que lhe chamou atenção. Já de saída parou em frente a uma vitrine com bonecos. Eram encantadores... Chegou a pensar se quando criança teve algum boneco. Não se lembrava. Riu da sua falta de memória e virou-se para ir embora.
- Psiu, hei, você!
Instintivamente Davi voltou-se para trás para ver quem estava chamando mas não viu ninguém. Quando seu olhar já ia passar de relance pela vitrine novamente, parou. O que é isso? Os bonecos todos encaravam Davi e podiam se mexer. Foi um soldadinho quem falou com Davi.
- Davi, não é?
Davi se aproximou da vitrine incrédulo.
- Faz muito tempo, eu sei. Talvez você nem se lembre, mas precisamos de você e você de nós.
Davi abaixou e apertou a cabeça.
- Eu não estou louco, não estou. Não estou...
- Você sabe onde deve ir.
Davi olhou para aqueles bonecos mais uma vez e saiu dali o mais rápido que conseguiu. Entrou em seu carro e o trancou. Abaixou a cabeça sobre o volante por um segundo. "O que está acontecendo comigo? Primeiro o palhaço, agora os bonecos. Deus! Eu vou ser pai agora, não posso estar enlouquecendo." Davi se olhou no retrovisor, estava pálido e suava. "Calma, vamos dar uma volta e você vai ver que não há nada de errado."
Davi ligou o som do carro no volume mais alto que alcançava e foi andando sem rumo e sem atenção. Quando deu por si, Davi estava longe da cidade e seu carro indo rapidamente em direção a uma ponte. Davi freou brusca e imediatamente e, no impacto, acabou batendo a cabeça com muita força no volante. Davi desmaiou.

"Comprador deste boneco, te peço, me ajude!"


"E Kim dá mais um de seus saltos fantásticos! E quando encosta na ponte não é mais uma boneca inanimada"

"O que deseja, pequeno rapaz?
Vim para a brincadeira"

"Você consegue ouvir atentamente a uma história, rapaz?"

"Sonhei com Guri."

"Você gostaria de fabricar bonecos?"

"Os bonecos ensinam tudo o que você precisar aprender..."

"Sim, eu quero!"

"É o seguinte: quero criar um boneco de mim, como um clone."

"Não acha um pouco perigoso?"

"A oficina é realmente incrível, Davi!"

"Ele nunca se atrasa."

"Era Davi estrangulando Davi!"

"Um... palhaço?!"

"Mãe, fala comigo! Eu sei que você está aí dentro agora."

"Um palhaço triste"

Um farol.

- Ah!
Vozes, imagens, tudo se misturava na cabeça de Davi que acordava de repente, assustado.
Agora ele se lembrava de tudo, seus bonecos, Albert Syn, o palhaço... E sabia onde estava.
Davi desceu do carro e atravessou a ponte. Bateu na porta.
- Ah, Davi! Eu sabia que você viria! - ele ainda era o velho palhaço.
- O que acontece agora? - Davi estava confuso, 18 anos haviam se passado.
O Palhaço colocou nos braços de Davi um boneco, um boneco com os mesmos traços de Davi e que parecia ter uns 9 anos; ele dormia. Davi observou o boneco, se observou em seus braços e seus olhos marejados se voltaram para o Palhaço sem saber o que falar.
- Bonecos são grandes professores, Davi. E além disso, como você mesmo deve ter visto, são mestres em dar segundas chances.
- E então, Davi - era ela, aquela linda boneca que agora parecia extremamente familiar a Davi - está pronto para ter sua segunda chance?

sábado, 19 de março de 2011

Sobre um desabafo pessoal - Continuação VI

Paredes todas brancas, alguma folhagem num canto, pessoas passando de um lado para o outro enquanto outras se sentam num sofá - também branco -, seu silêncio revelando a tensão em que se encontram. Salas de espera de hospitais são sempre iguais. Hoje quem se sentava no sofá branco em silêncio eram Aline e Ricardo, que esperavam notícias do seu filho, Davi.
- Vocês são os responsáveis de Davi Scolétte? - era um jovem médico que adentrava a sala.
- Sim! Como está nosso filho, doutor?
- Agora está bem, sob todos os cuidados, podem ficar tranquilos. Os senhores podem me acompanhar até a minha sala um instante, por favor? Por aqui ...
Os pais ainda aflitos sentaram-se nas cadeiras de frente ao médico que, Aline podia ler agora em seu jaleco, se chamava Luiz.
- Bom, a informação que recebi foi a de que vocês não estavam presentes no momento em que seu filho se acidentou, certo?
- Sim. Davi saiu de casa com a bicicleta logo após o almoço dizendo que ia na casa do Bruno, seu amigo. Só agora no fim da tarde, com o telefonema do hospital, que voltamos a ter notícias de Davi.
- Entendo. Bom, segundo o motorista, que foi quem chamou a ambulância, Davi estava pedalando de maneira muito acelerada o que pode ter lhe provocado um desmaio e, nesse momento, uma van vinha fazendo a curva em que ele se encontrava e acabou, inevitavelmente, se chocando com o garoto que, além de estar em estado quase desacordado, se encontrava na contra mão.
Aline não conseguiu conter o choro ao imaginar o que havia acontecido com seu pequeno menino. Ricardo abraçou a mulher.
- O motorista freou imediatamente ao ver o garoto, o que reduziu o impacto do que poderia ter sido um acidente fatal. Fisicamente, ele quebrou o braço direito, teve alguns cortes pelo corpo e pode sentir também dores devido ao choque do corpo e cabeça com o chão, mas nada muito grave e tudo devidamente tratado. Quanto ao psicológico é o que quero explicar a vocês. É frequente a perda de memória em pessoas que passaram por eventos traumáticos, é o que a medicina chama de amnésia traumática. A desaceleração no momento da colisão faz com que o cérebro seja jogado violentamente para frente e para trás e se choque com a parte óssea da cabeça. Nessas circunstâncias, a vítima pode sofrer alterações na coordenação motora, na fala e até no nível de consciência. Por fim, há o efeito psicoemocional, no qual o cérebro, por meio de uma espécie de mecanismo de defesa, bloqueia as lembranças relacionadas ao trauma. É impossível prever se a vítima pode voltar a se lembrar ou não. No caso de Davi, como ele estava desmaiando exatamente no momento do choque, e ele ainda se encontra sedado, não há como afirmar essas possibilidades. Nós vamos o manter desacordado ainda por um tempo enquanto fazemos mais exames. Quando Davi acordar teremos mais respostas e, claro, vocês serão informados. Tudo bem?
- Certo, doutor. Há alguma previsão de quando Davi poderá acordar? - Agora era Ricardo quem falava, ou tentava falar.
- Bom, como o choque não foi aparentemente tão grave, dentro de um ou dois dias.
- Certo.
- Agora, se me dão licença, tenho mais pacientes me esperando. Fiquem a vontade. - doutor Luiz deixou a sala.
- O nosso Davi, Ricardo!
- Ele vai ficar bem, meu amor.

Estava tudo um pouco embaçado, mas Davi conseguia identificar uma luz, ouvir barulhos emitidos por aparelhos, sentir que estava deitado. Fechou ou olhos, apertou-os bem e abriu-os de novo.
- Pai? Mãe?
- Davi! - Aline acariciava o filho.
- Como você está, campeão?
- Hã, não sei... Se eu soubesse como vim parar aqui até responderia. O que aconteceu?
É, parece que ele não vai mesmo se lembrar.
- Você caiu, meu amor. Caiu da escada quando descia para tomar café.
- Eu sabia que tinha que parar de descer aquela escada correndo, vocês já tinham me falado!
Aline e Ricardo sorriram. O primeiro sorriso em três cansativos dias de estadia num quarto de hospital.
- Bom dia! Então você resolveu acordar, garotão? - era o doutor Luiz que entrava no quarto - Como se sente, alguma dor? - e mexia em Davi enquanto falava.
- Só um pouco. Essas escadas... Sabia que uma vez eu quebrei meu pé fazendo essa mesmo burrice, doutor? Descer escadas correndo!
E eles sorriram. Não era um riso de quem se alegra, era quase um riso de pena de um menino que, ainda fraco, se culpava por algo que nem havia acontecido. Mas ainda assim era um riso.
- Agora vamos ver então se você aprende! Ricardo, você pode me acompanhar, por favor?
Os dois saíram da sala.
- Bom, pelo que eu entendi Davi não se lembrou e vocês já trataram de resolver com uma escada.
- Nós não sabíamos o que fazer...
- Tudo bem, pelos exames eu já esperava que ele não se lembrasse e é natural que pedisse uma explicação. No mais, foi só a memória que falhou, as outras possíveis consequências, felizmente, não foram observadas. Enfim, ele fica aqui por mais uns três dias só por garantia e depois está liberado.
- Obrigado, doutor!

Davi não sonhava, só dormia sem nenhum lampejo de imaginação. O escuro dos seus sonhos deu lugar à luminosidade do dia que nascia depois de suas "primeiras" três noites. Ele recebera alta.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Sobre um desabafo pessoal - Continuação V

Tudo parecia girar freneticamente. Era muita informação, muitos pensamentos, muitas lágrimas... Muita dor. Davi sentia pena daquele palhaço. "Perder o alguém mais importante que se tem e ficar praticamente sozinho..."
- Davi! - Davi correu, simplesmente correu.
Saiu da oficina, atravessou a ponte, pegou sua bicicleta onde o boneco dele mesmo a havia deixado e saiu a pedalar. Pedalava muito rápido, no ritmo de seus pensamentos. Pedalou até quando conseguiu, para o nada, pra longe... De repente parecia ter ficado tudo branco dentro da cabeça de Davi. Ele não pensava em mais nada, não tinha mais forças para pedalar. Sua respiração era ofegante, seu coração descompassado. Davi desmaiou na estrada.